O patrão-trabalhador-camionista

O Brasil esteve parado com uma greve de camioneiros. Confesso que sou fã de comboios. O transporte ferroviário devia ser soberano, é ecológico, confortável, faz pouco barulho, adoro comboios. Mas esta greve é finalmente um sinal de força num país que precisa mais do que outros com urgência dessa força. Não somos todos iguais, há sectores muito mais fortes do que outros. O governo Temer que assiste impávido a greves de dois meses de professores entrou em pânico com os camionistas, porque eles param o país, são uma força objectiva, não têm medo, e têm um muro defensivo de escudos na mão – os próprios camiões. Os camionistas não podem ser esmagados como Temer faz com professores – quilos de gás lacrimogéneo atirado sobre professores, na maioria mulheres desarmadas. Se as crianças da escola pública estão dois meses sem aulas Temer olha para o lado, o seu filho está em escolas com professores bem pagos, sem greves. Mas os camionistas param até o helicóptero onde Temer se desloca, voando diariamente sobre a barbárie do país que quer agora privatizar a Petrobrás.

Um sector, não sei se de esquerda se de direita – acho que eles também não sabem, a confusão é cada vez maior – veio porém lembrar Allende no Chile e denunciar os camionistas. Previsível. Aqui em Portugal durante o Governo de José Sócrates passou-se o mesmo, os camionistas entraram em greve contra o constante aumento dos combustíveis que fazem do grupo Amorim o mais rico do país e tornam a vida das pessoas comuns e das pequenas e médias empresas insuportável. Estamos aliás numa nova fase de comer e viver pior para pagar estas rendas fixas concessionadas pelo Estado, com a gasolina a atingir preços exorbitantes que resultam no aumento de todos os preços, até das maçãs e legumes. A CGTP, maioritariamente dirigida pelo PCP, veio nessa altura explicar que a greve dos camionistas era um lock out “porque eles eram patrões”. Ora, passa-se que as grandes empresas de transportes não aderiram a essa greve, de 2008, que foi protagonizada por pequenos camionistas, ex trabalhadores das grandes empresas.

É fácil de compreender – a grande empresa no final dos anos 80 chamou os camionistas, deu-lhes o camião, em muitos casos deu mesmo, para que ele se tornasse patrão dele próprio. Além do salário para se bastar passou este novo patrão a pagar a segurança social, as revisões do camião, caríssimas por causa da quantidade de pneus a trocar, etc. Para sobreviver teve que chamar o filho e o irmão que rodam 24 horas por dia, martelando, alegadamente os controlos digitais que limitam a condução. Mesmo assim vivem pior do que quando eram trabalhadores. Embora juridicamente sejam patrões na verdade são trabalhadores. Porque não se acumula capital nestas “empresas”, circula capital – o que é muito diferente. Estes trabalhadores-empresários não controlam tempo, serviços, clientes, nada – pagam contas, cada vez mais contas. Mas há um sector que adora inventar inimigos, mulher/homem, branco/negro, intelectual/manual, agora «perigosos patrões». Tudo o que possa ser usado para desmoralizar categorias que finalmente se erguem contra injustiças elementares é esgrimido. Também ouvi o argumento de que estiveram contra Dilma, ops, então nós não somos os maiores defensores da independência dos sectores profissionais face a qualquer governo como condição elementar da sua democracia?

Um dia terei tempo para vos dizer ainda que Dilma e Allende são incomparáveis, Allende tem um lugar merecido na história. Ainda assim Allende falhou com os camionistas Chilenos e isso foi parte da tragédia que se seguiu, não foi o seu maior falhanço, como como sabem bem os marinheiros, os que não morreram. Deixo isso para outras núpcias, porque nos dias que correm cada assunto complexo tem que ser partido em dez pedacinhos – algumas pessoas têm horror a histórias reais feitas de pessoas reais e que não cabem naquela caixinha fechada em autoclave. Podem os camionistas brasileiros sair desta greve com um subsídio às empresas que vai ser sustentado pelos trabalhadores? Podem. Tudo é possível, mas se forem abandonados como “perigosos capitalistas”, uns desgraçados que vivem na estrada a conduzir 12 a 14 horas às vezes, garantidamente o resultado vai ser mais subsídios. A vida é como ela é, e só é para quem está lá na hora certa, sem tremeliques.

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2 thoughts on “O patrão-trabalhador-camionista

  1. A capacidade de fazer valer uma posição ou de se representar uma força objectiva tem sido o contraponto da perda generalizada de direitos, a motivação para o confronto tem estado acima de tudo voltada para o interesse particular, pessoal e imediato – mesmo que razoável, este posicionamento tem blindado uns e desprotegido outros, tudo numa lógica concorrencial que garante a todos o caminho para o fundo. Todo o poder é conferido, somos um pouco de tudo e de todos.

    Essa transferência de custos das empresas é também uma transferência de responsabilidade, a impoluta empresa contrasta com desregrada subcontratada que parece não olhar a meios para atingir os fins.

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