No País do Futebol

Parte do país desistiu dos filhos. E permite que uma manifestação de 50 mil professores seja eclipsada por uma contenda de uma sociedade desportiva. A razão é simples. Simplesmente devastadora – grande parte dos sectores médios e classes trabalhadoras acham que com uma boa educação os filhos não chegam a lado nenhum, mas se forem os CR7 dos futuros os filhos vão ter mobilidade social. É assim que os filhos não conseguem se concentrar 5 minutos em nada mas são levantados às 8 da manhã ao Domingo para ir com 6 anos para o treino de futebol, onde até já são federados; os pais fazem 100 km para ver os filhos de 8 anos jogar ao sábado mas vêem-nos chumbar a matemática como uma «inevitabilidade», ele «não tem jeito para a matemática». Os professores, que em massa, reclamam mais educação são, magicamente, eclipsados nas notícias do país. Porque o país, os governos, têm uma política de baixos salários, má formação e portanto ignoram os alertas dos professores. Sobra aos pais, que não sabem como educar os filhos e não vêem esperança para eles, a esperança que sejam estrelas de futebol. O que equivale a ter milhões de pessoas a apostar a orientação da vida no Euromilhões. Não sou contra o futebol, pelo contrário – acho um jogo divertido, colectivo, que junta e anima pessoas. Mas de jogo a aposta estratégica para uma nação vai um passo – suicidário – de gigante. Concorde-se ou não com as centrais sindicais, 50 mil é um número que expressa um mal social profundo no sector. Não tiveram sequer honras de capa de jornal. Os professores estiveram na rua a dizer que querem ajudar a construir um país que seja parte do mundo científico, cultural e de trabalho com qualidade. Ao mesmo tempo as instituições principais do país – AR, PR, Governo e todos os media – debatiam a bola. Nem um debate público de fundo vi estes dias sobre que educação queremos para a nação. Portugal não vai ganhar o Euromilhões, não sei se já perceberam. Ou aprendemos muito e bem, com tempo e esforço, e cuidamos de quem trabalha a sério, e nos jogamos na educação de cabeça ou no fim isto vai ser uma Florida onde se vende casas e jogadores de futebol.Caminhamos cada vez mais para ser um país atrasado.

3 thoughts on “No País do Futebol

  1. Será que Nietzsche também tinha razão nisto?
    A servidores (herd) tem o que merece.
    Os senhores (masters) divertem-se a ver as trapalhadas dos servidores… e entretanto os sistema fica cada vez mais a favor deles (masters)… ☻

    Curioso que a AI (Artificial Intelligence) [nota para mim é Artificial Integration… até à inteligência falta mesmo muito] precisa também de servidores no entanto não são humanos. ☺

  2. Nós, que estivemos a um passo de progredir e de deixarmos de ser um país pobre, e apesar das auto-estradas, da electricidade alargada e outras melhorias, vamos a passos largos, sim, para sermos um país atrasado. 😦

  3. É assustador esse cenário. Mas tem razão, Raquel. Eu vejo o impacto das greves e manifestações ser reduzido face ao “clubismo” do país. Mesmo no resto do mundo, eventos de futebol (e outros desportos) parecem ser utilizados como “arma de distração maciça”. É muito estranho este mundo.

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