Poutou não tem a vida fácil

Poutou não tem a vida fácil, nem à direita nem na maioria da esquerda politizada. Poutou tem demasiada força num mundo de glorificação liberal dos excluídos. Ele não é um pobrezinho a quem damos esmola, mas um lutador coerente com músculos e nervos de aço. Filho de um carteiro este operário da Ford é considerado um «utopista» pelos franceses, embora tenha cada vez mais apoio. Ganho projecção em França nas últimas eleições.

A direita odeia-o porque é um operário organizado contra o capitalismo e defende o «controlo público de quem trabalha» sobre os bancos e a ocupação de fábricas no meio da tentativa desesperada da França para liberalizar as leis laborais, no ano que se celebra o Maio de 68.

A esquerda fortemente influenciada pelo retrocesso identitário dá-lhe atenção discreta ou simplesmente o ignora porque entre os seus pecados está ser operário, branco, homem e francês – tudo factores que lhe dão mais força (e não menos) para ajudar na construção de uma alternativa política coerente e europeia. A posição de um operário hoje no sector automóvel num pais central é obviamente muito mais forte do que qualquer outro sector laboral num país semi periférico como Portugal ou um dos países do sul global. A proposta da UE de Macron e Merkel não é fazer transferência de conhecimentos e tecnologia e patentes entre os países ricos da UE e os pobres da periferia mas justamente acabar com os direitos laborais em França. Poutou está no coração do sistema – a indústria automóvel.

Também não é um jovem precário sem capacidade de direcção política mas um trabalhador protegido com muita experiência política, não é por isso uma figura pública de massas mas um líder clássico com autonomia própria.

Dirigente sindical num mundo de sindicalismo corporativo também os dirigentes sindicais europeus não lhe prestam atenção, Poutou saiu da sua zona de conforto e quis ter uma palavra a dizer sobre o Governo da França e não só sobre a sua fábrica e o seu contrato colectivo de trabalho. Além disso, embora dentro da CGT, pratica um sindicalismo de base, fortemente democrático, o que a direcção da própria CGT, muito burocratizada, teme.

Finalmente Poutou vai directo aos assuntos importantes, hierarquiza prioridades – bancos e código laboral -, não deixando porém de afirmar direitos democráticos essenciais.

Em suma, não é um oprimido que inspira cuidado mas um lutador consciente que impõe respeito. Não faz parte das vítimas sem rede, sem apoio, sem chão, dos precários, dos excluídos, oprimidos vários, que se tornaram as coqueluches do Estado assistencial contra o mundo dos direitos universais, mas dos que podem nos países centrais mudar realmente o mundo produtivo e enfrentar a degradação das condições do mundo do trabalho. Poutou tem força, tem mais força do que um desempregado, um precário, um imigrante, e por isso tem um papel destacado na luta contra o racismo, a discriminação, e o cuidado com os refugiados, está também na linha da frente contra os bombardeamentos da Síria, é raro hoje em dia ver um francês tão determinado na denúncia da xenofobia e do papel predador da real politik da França fora de fronteiras. Tudo isso podem ouvir aqui neste vídeo. Não concordo com algumas notas, mas em matéria de economia, leis laborais, limites mínimos de decência e não vegetativos nos salários, sistema público de serviços e financeiro, eis Poutou. Além disso é giro, simpático e tem um nome que faz lembrar os desenhos animados, soa a croissant quente pela manhã trazido pela mãe enquanto víamos os ursinhos a correr nas montanhas dos Alpes. Poutou, Voilá!

 

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