Livro de Estilo

Os tempos são conturbados, e as redes sociais colocaram frente a frente milhões de pessoas em tempo real. Isso é extraordinário. Mas, precisamos de uma Carta comum de convivência, sob pena de aquilo que foi feito para juntar as pessoas, passe a separá-las cada vez mais. Deixo um pequeno contributo para esta Carta em três ideias.
 
1) Nós não pensamos como os nossos amigos, colegas de trabalho, partido, clube, associação ou família. E ainda bem. Há tendência para ver na discordância fragilidade da nossa posição, ataque a nós enquanto indivíduos, porque há uma oposição, mas isso só nos fragiliza a curto prazo. Quando temos pessoas, perto de nós, que discordam de nós, isso a médio prazo faz-nos mais fortes. Porquê? Porque elas têm carácter e espinha dorsal moral. Os mais críticos (não a crítica rasteira mas de fundo, que vai mesmo contra a nossa opinião), os que não cedem a pressões, a modas, os mais sólidos, são os aliados que todos devemos ter por perto. Para isso temos que aprender a viver com quem discorda de nós, sem colocar em causa relações.
 
2) Há uma enorme diferença entre inimigos e pessoas de quem discordamos. Não podemos usar para classificar o Hitler e o oponente debatedor com a mesma ofensa. Isso elimina qualquer tipo de diálogo.
 
3) As redes sociais não têm tacto, cheiro, olhar, tom de voz. Como sabem é com estes sentidos, mais do que com a linguagem, que amamos e nos relacionamos com os outros, quando estamos frente a frente – gestos por exemplo são uma linguagem que usamos sempre sem dar por isso. Precisamos por isso nas redes, na ausência de olhares e melodias, de mais confiança entre todos e não menos. Boa-fé e não justamente o contrário, má-fé recorrente. Há pouco tempo tantos ficaram incomodados porque falei de «favelas imundas». Ora evidentemente que eu não estava a ofender um favelado mas a descrever uma situação social – se lerem o que Engles escreveu sobre os irlandeses trabalhadores vão achar a minha uma descrição ténue. Mas isso é agora irrelevante porque ao ritmo a que os temas se sucedem todos se tornaram potencialmente suspeitos. Quando devia ser o contrário, devermos acreditar que – até prova em contrário- as pessoas querem o melhor para o mundo. Precisamos de relações de confiança, de olhar os percursos das pessoas, de olhar quem elas são, antes de as colocarmos na caixa dos inimigos a abater. Uma caixa assim vai ficar cheia, e a dos aliados vazia – é uma questão de pouco tempo. Uma vez o meu querido amigo e co-autor Coimbra de Matos, psicanalista, disse-me nas nossas conversas: “as pessoas mais saudáveis sentem fascínio pelo que é diferente, as mais frágeis medo”.
 
Ou mudamos estes comportamentos ou no fim não haverá lugar a alianças, seja para que causa ou trabalho for, ao nosso lado estará a nossa imagem, reflectida num espelho, sem nos contrariar. Perfeita. A solidão esmagadora. Necessitamos confiar mais uns nos outros, deixar o ódio e o desalento para os poucos que realmente o merecem (existem, mas são poucos), ouvir mais, reagir com menos fígado e mais razão. Porque todos os nossos nervos e músculos são chamados a reflectir e agir em tempo tão desafiantes. É tempo de criar laços, não de multiplicar inimigos sem razão a cada soluço.
 
Dizem que temos que saber como acabar uma relação. Concordo, dar tempo ao tempo não resolve nada. Mas também falta a muitos saber hoje como começar uma relação. Aqui nas redes sociais, estou convencida, também há lugar a «ele tropeçou e entornou o vinho no meu melhor vestido branco, mas enfim…é tão charmoso».

2 thoughts on “Livro de Estilo

  1. Fazer valer a nossa individualidade sem interposta pessoa é a derradeira capacidade, é perverso o facto dessa pessoa existir e não ser perceptível, sim, porque quem controla as nossas relações controla-nos mas sei que não é isto que está em causa neste seu texto. As redes sociais permitem a liberdade amputada ás relações presenciais, as pessoas vivem num colete de forças que as amarram à inverdade, as expectativas de quem ouve e de quem é ouvido subvertem o propósito, adulteram tudo, no final apenas fica a pobreza do que somos capazes de ser. Estamos numa altura em que a imposição de civilidade é vista como algo desejável, saudável até, estamos numa altura de muito pouco esclarecimento. As rede sociais permitem-nos o confronto descomprometido com a diferença e isto torna-nos mais completos.

  2. Tem razão, como sempre e eu caio nessa “armadilha” muitas vezes. Por excesso de zelo, porque sou idiota, por fúria perante coisas que quero mudar e não posso. Estarei mais atento a isso. Obrigado Raquel, por ser e mostrar, por falar e fazer, não ser oca e superficial.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s