Lula, o “fascismo” e o Caos

A ideia de chamar “fascista” a alguém como política surpreende-me. Não serve para nada a não ser para «desopilar o fígado», é a função das carpideiras nos funerais. Elas não resolvem a vida material das viúvas e filhos, mas berram, gritam e choram.
Em cada país tem que se oferecer soluções claras para os problemas das pessoas, que as levam a votar nos seus carrascos – apelidá-las, bloqueá-las, caluniá-las, gritar com elas não vai mudar em nada o seu comportamento, pelo contrário – estamos a afastar-nos cada vez mais.
Naturalmente eu não me refiro a dirigentes ou milícias – que no caso também não se combatem a brincar às ofensas no facebook porque isso é atirar uma pedra a um canhão. Refiro-me à ampla base social que de forma equivocada e mesmo por vezes desesperada não vê saída para as suas vidas difíceis a cada dia e apoia politicas de extrema direita.
 
Esta base social que chega aos 16, 20 e mesmo 30% em eleições a rigor nem sabe o que é o fascismo – em França por exemplo a base social da Le Pen não usa tal palavra, mas “defesa do emprego”, da “produção francesa autóctone”, etc. Se vocês chamarem a um trabalhador que vota na Le Pen fascista ele fica ofendido porque o avô combateu o nazismo na resistência.
 
No Brasil há trabalhadores industriais que votam no Bolsonaro, fazem-no – responderam-me em conversa – contra a corrupção, o crime, a reforma da previdência do Lula, não o fazem porque são «fascistas». Devem, suspeito achar que isso é um produto de limpeza ou uma nova música. Nunca escutaram tal palavra na vida.
 
Há pouco tempo perguntaram à base do Labour inglês o que era o trotskismo, por causa da radicalização do Partido, a maioria deu respostas hilariantes. Não fazem a mais pequena ideia de nada conceptual e histórico. Mas sabem que não estão bem e que Corbyn lhes oferece – raro na esquerda mundial -, direito ao emprego, coesão dos serviços públicos com uma proposta concreta: massiva renacionalização das empresas.
 
Naturalmente que Bolsonaro representa em primeiro lugar, do meu ponto de vista, a repressão contra estes trabalhadores (são eles e não os «oprimidos» que vão sofrer mais com as politicas repressivas). Se concordamos com isto – o capitalismo é bruto com os grupos oprimidos mas vai ser implacável com os trabalhadores organizados que podem mexer no lucro com greves– ofender estas pessoas não é política. Ainda por cima com ofensas que elas nem fazem ideia do que representam. É desistir delas.
A prisão de Lula (e por isso sou contra ela) antecipa milhares de prisões de dirigentes operários quando estes levantarem a cabeça contra as medidas que vêm aí contra eles e que vão implicar, vou usar um conceito equivocado, mas para se compreender, cortar a sério nos salários da chamada aristocracia operária, que manteve a estabilidade dos regimes democráticos pós anos 70 e 80 – isso acabou. Este é um movimento mundial novo, pós crise de 2001 – avançar sobre os sectores mais organizados e bem pagos para repor as taxas de acumulação, essa é a resposta da crise que vive hoje o capitalismo. Mas eles, esses operários, não estão a defender o Lula hoje nas ruas porque foi o Lula que lhes cortou a previdência e porque o seu salário relativo tem vindo em descida sistemática, cada vez pagam mais para ter menos, não têm educação para os filhos, saúde, etc.
E porque as políticas de assistência social não implicam transferência de renda dos lucros para os salários mas dos sectores médios de trabalhadores para os sectores pobres.Isto é, aumentam a desconfiança e o mau estar entre trabalhadores – se nós não entendemos isto deixamos de dialogar. Quando os sindicatos e os partidos social democratas e de trabalhadores passaram a defender subsídios de desemprego, rendimentos mínimos e bolsas família, em vez de emprego, entregaram uma parte dos seus trabalhadores, sérios, decentes, no colo da extrema-direita.
Junte-se a isto o apelo doentio, em nome dos «direitos humanos», à concorrência entre si – negros contra brancos, “favelados” contra centro; LGBT contra hetero, homens contra mulheres, nativos contra migrantes – são anos de políticas sucessivas de apelo à fragmentação e à concorrência, tudo em nome de proteger os «oprimidos», sem qualquer plano de coesão social, unificado. Há sempre um oprimido mais oprimido que o anterior que impede a concretização de um programa coeso de vida em sociedade.
Na verdade o único “direito humano” que a esquerda não abraçou como programa sistemático estes anos foi o direito humano ao emprego decente para todos, sejam de que género, etnia ou origem social forem.
Tenho escrito aqui por vezes sobre migrações e o preço da força de trabalho na Europa. Não concordo com as políticas de Estado de livre circulação. Concordo com a livre circulação organizada como forma de solidariedade internacional entre as organizações representativas de trabalhadores.
São duas “livres circulação” que só no nome se igualam, no conteúdo uma promove a xenofobia, a outra a solidariedade. Só as políticas de solidariedade entre sindicatos e ORTs podem evitar que os operários votem na extrema direita e eu não acho que se resolva a questão da ascensão das políticas de extrema direita chamando «fascistas!!», e gritando cada vez mais alto «seus fascistas!». Isso é histeria, não é programa político.
Ou há políticas de diminuição efectiva da concorrência entre trabalhadores, seja entre precários e fixos, migrantes e nativos, homens e mulheres ou as politicas xenófobas, machistas, racistas vão ter mais adeptos, sob a capa de proteccionismo.
 
Gritem as vezes que quiserem, usando cada vez ofensas maiores – só estão a cortar o diálogo com uma base social que na verdade fugiu para ali não porque os tribunais são muito fortes, e as TVs “fazem a cabeça das pessoas”, mas porque a esquerda social democrata não teve nada para lhes oferecer em 3 décadas a não ser mais concorrência. Logo, mais caos nas suas vidas.

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