Cultura Impopular

Só vai ao teatro quem faz teatro, Idem para a música. A crise na cultura é profunda. O velho Marx – que quase ninguém na verdade leu mas adoram citar por diz que disse – explicava os efeitos sociais da separação entre trabalho manual e intelectual. O que isso tem a ver com António Costa e DGartes?
 
A mobilização em curso dos agentes culturais questiona o parco orçamento, e acho que têm toda a razão. Não quero pagar bancos e quero pagar teatros – o teatro da banca falida é uma ópera bufa que já não se aguenta, ai não aguenta, não aguenta!
 
Mas eu, sem me permitem, deixo aqui um conselho e uma pergunta: como fazer de uma luta de elites uma reivindicação democrática, de todos?
 
Eu explico-me, Portugal tem um baixíssimo nível de participação cultural. Muitas artes, entre elas o teatro, estão muito vezes vazios, às «moscas», porque a cultura é elitista, mas ela é elitista porque há uma separação entre produtor e consumidor, entre pensar e executar, entre mandar e obedecer. Se nós queremos criar públicos temos que ensinar a sério na escola pública, massificar, a música, o teatro e as artes – não vamos fazer de todos pianistas, actores, pintores, mas vamos assim criar públicos. E criando públicos vamos melhorar e muito a própria produção cultural, ver nascer uma imensa criatividade que agora nem se chega a expressar – essa é a beleza da democracia.
 
O povo ( e a maioria de todas as classes, incluindo e de que maneira! a média) está estupidificado – como sabem hoje em dia é censurado (vulgo politicamente correcto) dizer-se a verdade sobre o estado trágico em que se encontra a larga maioria da população. No século XIX as associações mutualistas ensinavam aos seus filhos, filhos da classe trabalhadora, música, teatro, assim nasceram tantas associações. Agora estão resumidos à TV e telemóvel.
 
Pior, quando qualquer membro da classe trabalhadora tinha vergonha de viver em locais porcos, ser analfabeto ou ter filhos ignorantes há 40 anos, lutando para sair desse estado – é verem a propósito disso os documentários do 25 de Abril – hoje ensinam-lhes que há uma “beleza própria” em tudo,”cada um é como cada qual”, mudar isso é «autoritarismo», que é “ofensivo” dizer a verdade e que há uma «educação popular». E, claro, que tudo o que é complexo, abstracto, de qualidade, erudito, é pedantismo. As pessoas serem ignorantes não é um problema, problema é dizê-lo.
 
Na verdade chegámos a um estado em que largas camadas da população não tem acesso à cultura, acesso algum. Para a maioria das pessoas ir ao teatro é uma seca porque nem percebem o que vêem, idem para qualquer expressão artística. Vai piorar.
 
Os intelectuais resolveram isto da seguinte forma: a cultura é para poucos (que os entendem), o povo é estúpido, logo temos que saber conviver com estes Governantes (ao lado de quem estão com frequência, demasiada frequência) porque colocar-nos na mão de um povo estúpido seria pior.
 
E assim abdicaram de exigir que a população tenha direito à cultura, que é um pilar do Estado Social.
Em lugar da transformação – que implica a rejeição critica do que existe – dá-se verniz ao embrutecimento cultural; qualquer parede borrada vira pintura, monte de lixo passa a instalação, uma sucessão de imagens sem guião é um filme, que só os muito profundos alcançam.
 
Em suma, esta mobilização dos agentes culturais, que saúdo daqui com solidariedade, pode ser resolvida de duas formas, gritando com o Governo que vai distribuir mais umas verbas e o problema vai explodir para o ano ou no outro; ou exigindo uma politica cultural de fundo, um Estado Social que não existe sem isso – sem o acesso democrático à cultura, que implica que as pessoas não sejam só espectadores, mas produtores-consumidores. Só teremos um país a sério quando todas as crianças fizerem teatro, pintarem e tocarem um instrumento. Sem isso no século XXI não há democracia – não adianta mentir e dizer que hoje têm outras valências, são mais tecnológicos – o que nós temos é uma brutal elitização do saber, e saber é poder.

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