A esquerda em auto mutilação
Esta semana o “homofóbico” de serviço para ser linchado nas redes sociais pela esquerda foi o historiador Fernando Rosas, líder do Bloco de Esquerda, opositor à ditadura, e uma das pessoas que mais lutou pelos direitos dos homossexuais em Portugal. A «bolha» de esquerda – que desconhece totalmente como vivem e o que pensam os trabalhadores – reagiu intempestivamente, como reage sempre, a selvajaria intelectual tornou-se o padrão facebookiano. De dirigentes políticos com um programa coeso de transformação social alguns militantes destes partidos transformaram-se em correctores ortográficos do status quo. Conseguiram transformar o Chico Buarque num machista e o Ricardo Araújo Pereira num homofóbico. A razão é fácil – a crise do trabalho como valor, ética, é a crise do valor-trabalho. O desrespeito pelo trabalho é o elogio das identidades. Temo que as pressões de seita na esquerda sejam auto destrutivas. Não sobrará ninguém neste loucura de fazer de quem pensa fora da caixa um inimigo.
Fernando Rosas é membro, foi candidato e deputado do partido que mais lutou pelos direitos dos homossexuais em Portugal, e fê-lo quando isso não dava votos, pelo contrário. Estou à vontade porque não sou membro, eleitora ou apoiante do Bloco de Esquerda. E já não trabalho com o Fernando porque ele se jubilou. Somos amigos, mas eu não defino amizades pela concordância de opiniões. Rosas usou um recurso linguístico, a ironia, para dizer que o CDS, partido conservador, só veio defender isso agora, quando não se arrisca a perder votos. Disse, em tom jocoso, sorrindo com sarcasmo, em polémica com um tipo de direita: «agora até defendem os homossexuais, são um partido moderno». Gente de esquerda veio explicar como ele tinha sido «infeliz», «homofóbico», «inacreditável».
Dizer isto da frase de Rosas é a mais crua ignorância linguística. No caso dele a ironia é um recurso de resistência ao conservadorismo. Está em causa o valor democrático da liberdade de expressão. E mais cedo do que tarde o Estado vai usar isso para silenciar as identidades que hoje crucificam quem melhor os pode defender.
Ou seja, o Estado vai estar legitimado pela caça às bruxas das redes sociais hoje para definir amanhã um livro de estilo que se pode usar. Como o livro de estilo é um programa político, vai criminalizar a oposição. Assim que tiver oposição.
Mas não creio que essa seja a origem do problema. Esse é apenas o sintoma, a ignorância. E essa – a repressão Estatal – vai ser a consequência.
A propósito do caso Rosas lembrei-me imediatamente do filme O Carteiro do Pablo Neruda em que o pai, penso que era o pai, queria matar o carteiro apaixonado pela filha porque ele lhe tinha dado «metáforas». O carteiro tinha escrito poemas apaixonados e o pai achou que isso, a metáfora, devia ser algo perigosíssimo. Hoje para se proteger a esquerda empoderada impôs um código semiótico. A ironia, a linguagem corporal, o tom, as metáforas, a caricatura, a hipérbole, nada disso existe, só adesão literal à causa una.
A cegueira da esquerda em ver isto resulta da crise das organizações políticas – nunca, desde a fundação do cartismo no século XIX, os primórdios dos sindicatos, os trabalhadores no mundo estiverem tão empacotados numa crise de representação dos seus interesses como a que existe hoje. Sobraram as identidades, ferozes, que estão em auto mutilação a bombardear os seus mais determinados e coerentes dirigentes. Prenuncio o pior.