Viva a outra metade!

Como puderam reparar estes dias recebi aqui ameaças vindas do Brasil. Muitos elogios, a maioria de brasileiros; várias críticas, certas ou não, em tom correcto; vários insultos, gritos escritos. E algumas, poucas, ameaças – de “representantes de negros” contra mim: “colonialista, europeia, branca, racista”. “Vão estar atentos a mim”, “seguir-me”, “se eu gostei do correctivo?”, diz um que se identifica como defensor dos negros. Correctivo em Lisboa em 1970 era conversa de torturador.

Vamos por partes, não sabia que ser branca e europeia era um insulto – tenho que aqui assumir publicamente essa minha pesada herança. Ainda que confesso sou meia moura, alentejana, um canto do meu país onde os cristãos e os mouros se enamoraram há muitos anos. Foi lá que o meu bisavô foi preso, pela polícia política, contra o fascismo, porque um dia foram inaugurar a casa do povo e o idiota que representava o ditador disse “Viva metade de Garvão” – metade da aldeia tinha dado dinheiro para a casa do povo, grémio fascista. O meu avô César foi preso porque gritou “Viva a outra metade!”.

Percebi também que a máscara da identidade caiu rapidamente, insultarem e ameaçarem publicamente uma mulher como eu já não é um problema, problema é não dizer “eles e elas”. Não ameaçaram um líder homem de extrema direita, um polícia militar, pois não? Ameaçaram-me a mim, mulher, desarmada. Calma, não passei a exigir lugar de fala de vítima por ser mulher, contínuo a ser contra o identitarismo, só achei graça à velocidade com que cai a máscara do machismo, vindo deles e delas – porque algumas ameaças são de mulheres.

Agora vamos ao que é sério, apaguei os insultos e as ameaças, guardei as identificações. Ameaçar alguém porque se discorda é fascismo, não se define um fascista só pelo programa. Métodos de ameaça a quem pensa diferente de nós são métodos fascistas. É totalmente irrelevante se vem do Bolssonaro ou de um activista qualquer de uma causa supostamente de esquerda. Nasci num país que teve 48 anos de ditadura – não tolero qualquer ameaça à minha liberdade de expressão, muito menos à minha pessoa. O meu lugar de fala só a minha consciência e com quem eu a partilho decide.

Agora digo-vos, sou casada com um brasileiro filho de um negro, a minha irmã brasileira é negra, ou parda, cor de bronze na verdade, luz por todo o lado. A minha mãe, branquinha, de olhos esverdeados, recusou-se, com 18 anos, a mudar do passeio dos negros para o passeio dos brancos na África do Sul do Apartheid. Pela tenra idade dos jovens fascistas da causa negra que me ameaçaram tenho ainda a dizer o seguinte – estavam vocês a nascer estava eu a começar a escrever livros e a dar aulas, já lá vão quase 20 anos, sobre o papel dos movimentos negros de libertação, trabalhadores forçados, no derrube da ditadura portuguesa, apesar do pai da minha mãe, meu tio-avô, ser um general que liderou parte dessa guerra colonial contra os negros. O meu lugar de fala seria talvez ao lado dos brancos colonialistas, talvez, mas o meu lugar de escolha de vida foi ao lado dos trabalhadores: brasileiros, portugueses, noruegueses ou chineses.

Vão ter por isso, como se diz no meu querido Portugal – que desculpem lá eu adoro – , que comer muitas torradinhas com leite antes de me vir dar lições sobre anti-racismo, anti imperialismo, direitos humanos elementares e democracia política e social.

Avô, sei que não me ouves, mas “Viva a outra metade!”

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4 thoughts on “Viva a outra metade!

  1. Prezada Raquel, li consternado ao que escreveu. A despeito do nome francês, nasci no Brasil e tomo parte de um sentimento coletivo de angústia, especialmente naqueles que ainda dispõem da capacidade de considerar outros e outras. Estou lendo o seu livro sobre a Revolução dos Cravos. Um abraço cordial. Sim, do Brasil.

  2. Confirma-se, é uma arrivista. Que faça bom proveito.

    Escusa de deturpar o que lhe escrevi, e outros, como uma ameaça à sua liberdade de expressão. Vi muitos poucos brasileiros a apoiá-la, e os porquês são óbvios para quem realmente conheça o país

    Voce recebeu sim respostas bem duras de gente que está farta de ser desconsiderada e abusada por oportunistas à Esquerda.

    Pelo contrário, o que eu quero é que você fale às claras para que outros vejam isso mesmo e tirem as suas conclusões quando a virem a perorar da sua torre de marfim em horário nobre.

    Se é assim tão valente e orgulhosa dos seus pergaminhos de combatente anti-fascista, tenha no mínimo a decência de publicar os comentários.

    Passar bem.

  3. Olhe, como continua a censurar comentários, algo que julgo incompreensível para quem se diz combatente anti-fascista, fica o heads-up: https://twitter.com/joaompfp/status/975015990856699904?s=19

    Era desta marcação cerrada que eu falava. Quero lá saber de você, preocupa-me é ter gente assim, desonesta, a conduzir a nossa opinião pública.

    Não faço isto para a atacar. Apenas para ver se abre os olhos e percebe que se quer construir soluções, tem que perceber a questão racial, e a força que tem o movimento negro no Brasil, que faz mais para combater a desigualdade do que batalhões de opinadores na TV. E tem que construir pontes para trabalhar com ele, ainda irá a tempo de o reparar mas tem que ser mais humilde.

    Fica-lhe muito mal menorizar os seus interlocutores com essas bocas das “torradinhas”. Eu prefiro a cachupa guisada com peixe frito e linguiça pela manhã. Você não sabe nada sobre mim, a minha história, o que sei ou deixo de saber, o que fiz ou deixo de fazer. E não vou entrar nesse debate raso porque tenho pudor, respeito demais os meus ancestrais e companheiros de luta para fazer deles panfleto.

    Estou sempre disponível para conversar. Só não tolero manipulações.

    Boa semana.

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