A Inveja mata mesmo

Um provérbio popular diz que a inveja mata – hoje sabemos que mata mesmo, não é metafórico.
 
Hoje as denúncias nos locais de trabalho entre colegas – repito entre colegas, não é só de patrões e gestores para trabalhadores -, são um dos principais motivos de adoecimento no trabalho. A única boa notícia é que o denunciante também fica doente – a inveja mata, e mata também o invejoso. Não se sabe até se não mata mais, ou seja, se quem pratica denúncias contra os outros não adoece mais do que quem as sofre. É quase impossível concluir porque há muitos factores complexos que conjuntamente actuam nas questões de saúde.
 
A psicopatologia do trabalho, cujo país mais desenvolvido é a França, chegou a importantes conclusões sobre a “inveja”, um dos pecados capitais da Bíblia, não por acaso. Tirando psicopatas, felizmente uma minoria, a maioria dos seres humanos fica mal quando ataca os seus semelhantes, e fica bem quando coopera e ajuda. As pessoas em geral percebem isso e portanto raramente um denunciante se apresenta – para si próprio, conscientemente – como tal. Ele, quando denúncia o colega está apenas “a cumprir a lei”, a “ajudar a justiça”, a “repor a igualdade”, ele nem denunciou, deu só uma “dica no almoço”, lançou uma “pequena dúvida”, “só disse a verdade”.
 
O que os psicanalistas nos ensinam agora – em França estatisticamente neste momento a maioria das consultas de psicanálise têm como origem conflitos laborais, e não amorosos, como era há anos – é que estas pessoas não assumem conscientemente que são delatores, bufos, mas o seu subconsciente sim. Sabem que não denunciaram o colega porque ele fez algo essencialmente errado mas porque ele é uma ameaça, num jogo de competição – ele tem um trabalho extra ilegal quando sai do turno, vendeu um peixe que pescou sem pagar impostos, ou passou um recibo em nome de outrem – tudo isso são desculpas para um sentimento muito importante chamado inveja.
 
O nosso subconsciente porém reconhece quando há cooperação sincera e vontade de fazer bem, e produzimos occitocina, hormona do amor, altamente protectora de doenças, e fundamental para a sensação de bem estar e felicidade. Quando somos “bufos”, “delatores” temos como prémio a produção hormonas da agressividade, produzimos maldade. Como no Pinóquio, essa fábula magnífica, temos sempre connosco uma inconsciente consciência – a Jiminy Cricket, a Grilo Falante. Que em última análise remete à própria sobrevivência de nós como espécie, somos gregários e só juntos sobrevivemos bem, fomos seleccionados para ter instintos gregários que permitiram sobrepor-se a outras espécies onde a competição é dominante. Além da educação, cultura, temos prazer (bem estar) em ser decentes uns com os outros. Voilà!
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1 thought on “A Inveja mata mesmo

  1. O assédio moral no trabalho está a tornar-se moeda comum, em Portugal, mas infelizmente, que eu saiba, não há, como em França, estruturas para denunciar essas situações. Eu, por exemplo, sou vítima e não encontro forma de me defender. O medo instalou-se e ninguém ajuda ninguém.

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