Marielle, a Barbárie e o “lugar de fala”

Marielle está morta. Vamos falar a sério sobre o que aconteceu e acabar com esta treta do “lugar de fala”. O Brasil não tolera mais brincar ao socialismo. Agora é a sério.
Ontem foi assassinada no Rio de Janeiro a vereadora do PSOL Marielle Franco, mãe adolescente que saiu do buraco da pobreza lutando pelos direitos humanos elementares. Estou no Rio de Janeiro e raramente falo aqui sobre o Rio porque muitas pessoas cultivam a ignorância – quando se aponta um problema olham para o dedo que aponta, o detalhe, o acaso, o mensageiro e não a mensagem.
Chegou-se ao limite porque este assassinato é qualitativo, é sobre uma dirigente mulher negra. Não é um dos 60 mil negros todos os anos assassinados, mais do que na Síria, ele é um aviso real a todos os militantes no Brasil para que deixem de o ser.
Então aqui fica o que penso sem mediações.
A luta contra a violência no Brasil não pode ser só uma luta de pobres e negros. O famoso “lugar de fala” – só quem é negro fala de negros, quem é favelado fala de favelados, etc -é uma desculpa reaccionária (com véu progressista) para quem não quer assumir as dores dos outros. Não é socialismo, é virar as costas aos problemas que não vivemos na nossa vida.
A luta contra esta violência tem que ser também com urgência de brancos que vivem nas zonas nobres – enquanto eles não saírem à rua com os seus filhos, pais, avós dizendo “Basta!” não vai acabar a guerra que se vive no país. O que mais me impressiona no Rio é a tolerância da classe média à violência. Na Bélgica são barbaramente assassinadas crianças e milhões saem à rua. Até nos EUA os estudantes finalmente vieram para as ruas contra este clima intolerável de barbárie.
No Brasil os brancos e brancas, sectores médios, de esquerda resolveram há muito a sua vida: vivem em estado de pavor (vão para tal ao psicanalista), não atendem o telemóvel em qualquer lado, fecham os vidros dos carros, escolhem horas para sair de casa – num recolher obrigatório não assumido.
Se forem pobres não dá, claro. Rezam antes de entrar no ônibus, e sonham que os filhos “não morram”, é isso mesmo, a depiladora onde vou, de quando em quando, tem como objectivo que os filhos estejam vivos. Até me dói o coração quando a oiço, sempre alegre, comentar, “estão vivos Minha Portuguesa!, estão bem!”.
Quem tem dinheiro arranjou subterfúgios para viver no meio da guerra civil sem a questionar. Nunca percebi como as ruas não estavam cheias de gente a exigir o direito democrático a andar na rua sem ser assaltado, ou morto. Todos deram por adquirido que se vive assim, “é chato mas adaptaram-se”, aceitam o intolerável e quem não aceita isto é “gringo medroso”. Também há os gringos que vão em passeios turísticos a favelas!, sabendo, claro, que em breve estão nas suas casas, seguras e confortáveis. Às favelas, lugares imundos onde se luta pela sobrevivência, têm ainda o desplante de chamar “comunidade”.
Comunidade é sair de casa sem ter medo a qualquer hora. Tudo o resto é barbárie.
Ir ao Rio de Janeiro é o mesmo que ir a uma guerra – não uso as palavras em vão. No Rio a minha depiladora, que não teve a coragem de uma Marielle, tem pavor dos ladrões e pavor da polícia.
Andamos nos bairros nobres e são prédios, de ruas limpas, com grades, onde os porteiros conversam uns com os outros, como animais enjaulados. Enquanto a classe média entra e sai desses prédios e sobe pelo elevador dos moradores – sim no Brasil há um outro elevador, o de serviço para a “preta que vem da favela limpar”. Imaginem! Apartheid.
Concluí há muito que não há protestos colectivos pelo direito à liberdade de circulação e a deixar de viver em guerra, porque a classe média que trabalha resolveu a sua vida pessoal com custos gigantescos de segurança – um negócio forte no Brasil, todos os prédios têm porteiros, vídeo vigilância, alarmes estridentes insuportáveis que apitam o dia todo, andam de táxi para todo o lado. E, claro, jaulas – perdão, grades.
A classe média de esquerda, a base social real dos partidos de esquerda, não vem para as ruas exigir o fim da violência porque já resolveu a sua vida, no dia a dia, e porque isso implica dar mais poder ao Estado a quem acusam de ser a origem primeira da violência. Se há país onde o Estado é violento é este, sobre isso não há dúvidas, aqui manifestações são reprimidas com canhões e balas! É a guerra.
Mas não há só violência de Estado. Há uma tolerância com a violência paralela que para mim é e sempre foi incompreensível. As classes pobres trabalhadoras não exigem nada porque lutam para chegar ao fim do dia e comer e regressar vivas às casas miseráveis que habitam nas periferias – é curioso virem ainda com a história “do lugar de fala” quando a maioria deles chega ao fim do dia e esteve 3 horas no transporte, e comeu açúcar e hidratos de carbono, está esgotado…até para falar. E quando fala mal sabe falar português e explicar o que sente ou quer. As pessoas estão não só emocionalmente esgotadas, não têm força física nem instrumentos de saber, incluindo linguagem para se fazer entender. A maioria aqui teve uma educação tão baixa que não consegue distinguir numa simples indicação de rua a esquerda da direita. Que lugar de fala!? Quantas Marielles deste mundo vão sair das favelas!?
Desde sempre que me pergunto se não há e não pode haver um terceiro campo que se oponha à violência de Estado e à criminalidade. E que acabe com esta treta “do lugar de fala” – Marielle morreu praticamente sozinha porque falou sozinha. Porque nos milhões que vivem das favelas houve uma liderança, uma, que se destacou, com uma força anímica anormal, mulher, negra, que estudou, dedicou-se com coragem à causa pública. É a excepção. A regra é que os trabalhadores das favelas precisam de ajuda de quem está fora das favelas.
É isso que penso e que quero aqui escrever, sem mediações hoje, a violência no Brasil só vai parar quando quem pode lutar contra ela se deixe de adaptar a ela.
Quando os brancos que vivem nos prédios-jaulas disserem Acabou! Basta! Talvez nesse dia não uma mas muitas Marielles sintam força para sair das favelas. Socialismo é isso, é dar coragem para que os mais frágeis sintam força, é lutar pelos mais pobres, dizer-lhes “estamos ao vosso lado”. Não é exigir-lhes a toda a hora que façam sozinhos o que não podem fazer.
Marielle Franco, presente!
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9 thoughts on “Marielle, a Barbárie e o “lugar de fala”

  1. Mais uma cara bonita que morre na sua luta, morre devido ao seu isolamento, morre por causa da ousadia de defender aquilo em que acredita. Quem opta por olhar de longe para tudo o que não lhe toca directamente assegura o apoio tácito a tudo o que está errado neste mundo. É cada vez mais difícil de acreditar que não somos também os autores morais do horror que é este mundo.

  2. Você apagou a sua conta no FB, ou foi bloqueada?

    Espero que tenha aprendido alguma coisa com o correctivo que lhe aplicaram vários brasileiros em reacção a este post. Olhe, guardei-lhe um:

    “Apagou meu comentário, mas escrevo de novo: cala a boca, racista!
    Não é possivel uma mulher dessa escrever essa atrocidade e ser aplaudida. Nem em dias de tanta dor vocês nos respeitam! Sinhá vermelhinha não deixa de ser sinhá! Vai ter que engolir mulher preta falando sim! É muito ter sindrome de salvadora achar que o nosso povo precisa de brancos como você pra fazer alguma revolução. Gente como você pra nós serve em outro lugar, que não ao nosso lado. Sem nós vocês não são nada, você ainda não entendeu? Marielle se deu a tarefa de levar nossa vida a sério e por isso o mundo está indignado com a morte dela, por ela ser mulher, por ela ser preta! Por ela ter entendido o que é o socialismo de verdade e que ele só é possível com os pretos! Vocês não são porra nenhuma! Estão sendo engolidos, trucidados a cada passo que o nosso povo avança, porque não entenderam o básico. Se fosse uma mulher igual a você, que defende o que você defende, esse socialismo distorcido, branco e degenerado, não teria sequer uma rosa de favelado dedicado a você no seu túmulo! Não adianta teorizar, fazendo malabarismo e nem ficar falando difícil pra meia duzia de branco aplaudir. Você vive procurando uma justificativa pra ser racista! Vocês tratam os mortos de vocês com desprezo, transformam eles em mártir, usam a morte deles pra se construir, pra ganhar likes. Não venham fazer isso com os nossos mortos! Não tentem se misturar com os nossos! Vocês não sabem o que é dor! Você não sabe o que é dor, Sinhá! Você não perdeu ninguém! Marielle não cabe no teu texto, na tua análise hipocrita e oportunista com dialogo rebuscado
    Como pode uma mullher escrever um texto citando “a depiladora” e vir querer desbancar de fala de mulheres preta. É um completo escárnio isso! Descarada!”

    Não tem de quê.

    Voce devia emoldurar isto e ler todos os dias, até perder os tiques de menina bem que lhe toldam a visão. Caso para dizer, Vai Estudar Varela !

    Eu até a aprecio, sendo das poucas vozes que consistentemente denuncia a desigualdade em Portugal.

    Mas só lhe darão algum dia esse crédito que você descaradamente procura quando descer do pedestal, sair do seu conforto na academia e ouvir com humildade o que querem as pessoas que diz defender.

    Eu ainda acredito que não será apenas uma arrivista que procura subir na vida galgando a podridão do 4o poder em Portugal.

    Mas andarei atento. E pode crer que se for esse o caso vou-lhe fazer marcação cerrada. Ah se vou!

    A esquerda precisa de tudo menos de teóricos inconsequentes.

    Boa noite.

    • Segundo seu texto não precisamos de brancos para a revolução… Que coisa mais bonita! Criei até um grito de guerra: “Diga não a segregação, lugar de branco é no lixão!”

      • A esquerda tupinikin abraçou o pós-modernismo. Tudo começou com os protestos em sp na gestão Haddad. Desde então a direita ganhou força e vem esmagando a esquerda e os progressistas. Sem ler, nem entenderem de economia, a esquerda vai perdendo sua base teórica. Se tornando um caleidoscópio de insurgência inconsciente. Para essa nova esquerda, criada no face, assim como a nossa direita, a reflexão racional deu lugar a uma selvageria intelectual. Se um texto é mais elaborado dizem que é papo de branco… Se há uma discordância de ideias – racista, é claro! Culturalmente a esquerda não produz mais nada. Sofisticação artística é coisa de burguês, claro. Estou vendo uma homogenização de ideias e estereótipos alienantes dentro da esquerda que, juro pelos deuses do olimpo ou por Oxossi, nunca imaginei ver. A esquerda de hoje nem tem argumentos para defender o revisionismo histórico feito pela direita atual. Oh Bauman! Salve-nos!

      • Robson, subscrevo o seu comentário, além disso tenho um cunho literário que apreciei com gosto, meus cumprimentos, Raquel

      • É. Falou bonito pra falar muito pouca coisa. Só generalizações sobre a esquerda isto, a direita aquilo, mas nada a dizer sobre um grito de dor que aqui copiei de alguém que se sente traído precisamente por esses que você critica: a esquerda bunda branca que passa a vida nas redes sociais e polemiza, mas não faz ideia sobre como vive o pobre, negro e favelado. Eu alinho na crítica a essa gente. Aliás, por isso mesmo fiz o meu comentário. Só explicitei que a Raquel Varela, com este texto de fala rebuscada, demonstra sofrer exactamente dos mesmos males, mas sob um pátine de credibilidade acadámica. Pátine que contudo não consegue deixar de transparecer os preconceitos racistas – e de classe – da autora:

        “favelas, lugares imundos” “casas miseráveis” <- estigmatização do lugar de origem
        "Rezam antes de entrar no ônibus, e sonham que os filhos “não morram” <- menorização, implícito a ideia da religião vivida de forma acrítica
        "porteiros […] como animais enjaulados" <- esta é preciosa, o negro-macaco
        "preta que vem da favela limpar" <- um Bolsominion não diria melhor
        "As classes pobres trabalhadoras não exigem nada" <- desquailifica todo o associativismo de moradores da periferia – pudera, não o conhece concerteza
        "não consegue distinguir numa simples indicação de rua a esquerda da direita" <- pobre é burro

        Eu não digo em lado nenhum que "só quem é negro fala de negros, quem é favelado fala de favelados"; como aponta a Raquel de forma simplista demais para quem se diz académico em ciências sociais.

        E concordo quando a Raquel diz "A luta contra esta violência tem que ser também com urgência de brancos que vivem nas zonas nobres"; agora discordo profundamente que a solução esteja em "sair à rua e gritar BASTA" e dizer-lhes “estamos ao vosso lado”.

        Isso é que é a esquerda de twitter, isso é que é inconsequente. Colocar a ênfase da solução na classe média branca e privilegiada é ignorar o pensamento político dos negros – e há um historial longo, de décadas, a autora saberá algo da Négritude de Senghor, Aimé Cesaire, outros? Além de ser racista, e contra-producente, e a razão deste texto ter provocado reacções tão virulentas no Facebook.

        A Raquel diz nunca ter percebido "como as ruas não estavam cheias de gente a exigir o direito democrático a andar na rua sem ser assaltado, ou morto." Talvez percebesse se falasse com um camelô, um taxista, o entregador ou até sua depiladora depois de entender que "minha portuguesa" não significa que essa mulher lhe está dando um salvo-conduto para a representar.

        Não sou académico, ou academicista, graças ao gajo que joga aos dados, ainda bem.

        Porque se for para a Esquerda contar com vocês para arranjar soluções do alto de vossas cátedras, estamos tramados.

        Boa noite

  3. Concordo, sem restrições, com tudo o que disse, inclusive com os sentimentos que expressa no discurso. Infelizmente, o Brasil está há anos preso em um jogo binário esquerda x direita, no qual, paradoxalmente, não se vê, ou ao menos não se compreende, nenhum fundo real ou nenhuma racionalidade condizente com projetos políticos liberais ou socialistas. É pura retórica. Virou guerra de clãs e de seguidores que entendem muito pouco o que seguem e quem seguem. Estão imersos em retóricas liberais e socialistas que de concreto nada têm, mas de falácia, até demais. Falam em nome do povo, do pobre e do negro, enquanto esses permanecem calados, sem voz, invisíveis. Só são visíveis no discurso. Por isso o elevador de serviço: ninguém (de fora) quer ver a pobreza real ou o quanto é ridículo esse sistema de classes e de signos de prestígio. Sou brasileiro, e estou consciente de que a mudança da realidade do Brasil passa, necessariamente, por uma reflexão profunda sobre sua constituição, a construção da desigualdade e suas práticas do silenciamento. Se há uma revolução a ser feita, ela precisa começar numa escola do pensamento crítico.

      • É por isso que o individualismo é a melhor coisa possivel, que se foda os pretos, se vc não for preto , que se foda os pobres se vc não for pobre, e se a causa deles lhe oferecer algum perigo a sua individualidade que vc esteja apto (armado) se for o caso para se defender , cada um corre atrás do seu e que defenda sua posição conquistada junto de seus pares.

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