Crises nas Universidades, o que fazer?

Se vos disserem que estão a combater a precariedade, o que hoje todos dizem, desconfiem. Pode ser um comboio a vir para cima de vós e não uma luz ao fundo do túnel.

Há poucos assuntos na sociedade que não nos dizem respeito. Em geral somos corporativos, só olhamos os problemas que nos afectam a curto prazo. Por falta de tempo, e vistas curtas. Inexperiência politica, é bom dizê-lo. A Universidade portuguesa está em crise e não creio que o assunto só diga respeito a quem nela trabalha. A investigação é fruto de escolhas que orientam toda a sociedade – o que produzimos, como, para quem? São perguntas a que a investigação responde. É nas universidades que se formam os professores que vão formar todos os futuros alunos, são os vossos e os meus filhos, e o país que está em causa, o assunto é por isso seríssimo e diz respeito a todos.

Estou entre os que acham que estamos entre a espada e a parede – sem um programa decente. Há, de um lado, um liberalismo fervoroso e, do outro, o feudalismo, pintado de esquerda e progresso. Eu explico-me.

O Governo ofereceu uma tímida resposta de combate à precariedade. A isto responderam muitos, do quadro, dizendo «aqui ninguém entra porque eu não quero concorrência». Embora ideologicamente à esquerda – porque no século XXI não o podiam fazer com argumentos de direita – esta posição assemelha-se à posição da extrema-direita face aos imigrantes; ou dos operários face às mulheres no final do século XIX.

Há outras formas de lidar com esta situação, justas, para todos. Estou disso convencida.

Em primeiro lugar não reside na precariedade o principal problema das condições de trabalho nas nossas universidades. O mais grave é a estrutura medieval, quem quem está no quadro não crítica, sobre isso há silêncio absoluto. Estrutura que tem expulsado para fora do país incalculável número de quadros que – educados em universidades estrangeiras – não suportam o compadrio, a mediocridade, a protecção política como factor de progressão na carreira. Quem trabalha a sério tem tendencialmente menos paciência para estes ambientes. Ainda bem.

Fruto de condições históricas particulares a Universidade portuguesa vive um modelo combinado de uma estrutura medieval, sem transparência, com uma estrutura liberal, de forte precariedade. Ambas falam de mérito, ou até criticam o mérito, em palavras há de tudo. Mas palavras, leva-as o vento. Muitos têm reagido ao liberalismo como os senhores feudais reagiram à revolução francesa, querendo manter privilégios de carreira, de coutada, que são insustentáveis porque injustos, implicam hierarquias de poder e não de saber, ou saber-fazer. A solução porém não é precarizar todos. Privilégios não é ter um salário decente e protecção de emprego, isso são direitos, privilégios é ter poder sobre decidir o trabalho dos outros. É ser dono e fiscal do trabalho alheio. Ao ponto de caber a meia dúzia de pessoas, em concursos obscuros, decidir quem pode e quem não pode trabalhar e o que pode ou não fazer (dar ou não aulas por exemplo). Com consequências para o país inteiro, para milhares de estudantes e projectos que passam nas universidades.

Vamos dizer as coisas como são: é uma hipocrisia dizer que as pessoas não podem dar aulas porque são pós-docs ou investigadores. É uma pirueta para justificar a manutenção de privilégios hierárquicos, poder. A razão é simples: o contrato de trabalho, para os marxistas, e mesmo para algumas correntes reformistas social-democratas, não é uma forma jurídica mas uma situação de facto. E de facto, pos-docs, investigadores etc o que são é: trabalhadores das Universidades. E o que são, de facto e não de jure, trabalhadores das universidades? São trabalhadores intelectuais, para os quais pesquisa, ensino e extensão são um só e o mesmo trabalho. Ponto.

Para os que estão no quadro é fundamental que se reconheça, e já, os alunos que formaram como a parte mais importante da sua avaliação, em vez de colocá-los a competir com quem publica em revistas indexadas. Se estiveram a dar aulas e outros a investigar é óbvio que os segundos têm mais artigos. Comparar isto é fragmentar a classe. É óbvio que pesquisa e ensino são, acreditamos nós, um e o mesmo trabalho, produzir artigos não pode ser mais importante que produzir alunos. Uma avaliação justa não pode desprezar anos de docência, em nome de um artigo indexado numa empresa privada de indexadores (ISI Thompson). É ridículo. Quem formou alunos sabe o que isso custou, e como isso é tão relevante para a sociedade.

Deve haver carreiras protegidas para todos, porque queremos proteger o direito ao trabalho e conservar quadros científicos no país. O trabalho docente deve ser distribuído por todos, há uma indissociabilidade entre investigação e ensino; e todos, porque somos financiados pelo sistema público, temos obrigação de disseminar conhecimento, torná-lo palpável a quem está fora da universidade.

Mas, a melhor forma de lutar por direitos para todos é deixar os investigadores entrar na carreira docente, mesmo que precários. É a única moralmente justa. E juntos, com os do quadro, lutar por direitos. Não é barrar-lhes a entrada com argumentos hipócritas de “combate à precariedade”. Porque quem está fora não pode lutar, é simples.

Dois momentos terão que vir juntos, mas ambos são essenciais. 1) A destruição da barreira feudal é um progresso, porque destrói privilégios que fazem de alguns cursos e centros bunkers, que a prazo, se se mantêm assim, estão condenados na esfera nacional e internacional. 2) A construção de um programa além do liberalismo é uma exigência para podermos realmente fazer ciência e docência com contraditório, livre, séria e dedicada. Emprego decente para todos com divisão do trabalho e indissociabilidade entre investigação, docência e disseminação é hoje o único horizonte possível para quem acredita que o país e as nossas universidades têm futuro.

 

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