Não chorarei por ti Hollywood

Economia Política do assédio

Woody Allen continua por favor a fazer filmes, daqueles que nos lembram como nós próprios somos brutalmente manipuladores…mesmo, quem sabe sobretudo, com quem amamos.

A carta Deneuve, que não subscrevo na íntegra, trouxe para a praça pública a possibilidade de debater-se o que era interdito na questão do assédio. É um tema maldito. Em primeiro lugar o papel do Estado, queremos substituir uma sociedade machista por um polícia atrás de cada mulher? Em segundo lugar o erro na relação entre homem e mulher – nós erramos e erramos muito, e a maioria dos erros são perdoáveis. Em terceiro Hollywood vive aquilo que vou chamar uma luta ferrenha por descer os custos do trabalho – todos os homens afastados sumariamente das séries e filmes ganhavam 4, 10, 20 vezes mais. E não foram substituídos por homens ou mulheres a ganhar o mesmo. Aconselho vivamente a intervenção com números neste programa da Inês Pedrosa, que é feminista, conhece os números e demonstra como a competição em Hollywood está a levar a estes processos de Moscovo, ou processos de Los Angeles. Os salários mais baixos, ainda assim altos, na indústria cinematográfica estão em queda livre, como estão nos lugares de gestão. Porque há escassez de mão de obra nos países centrais, incluindo nos lugares de direcção – sobre isto aconselho os relatórios da Comissão Europeia sobre escassez de força de trabalho qualificada na UE e medidas a tomar, incluindo no campo do género.

Que o feminismo de esquerda, emancipador, num mundo onde a maioria das mulheres nesse sul global está muito mal, se possa alguma vez rever nestes objectivos e métodos deixa-me perplexa. A falta de horizonte independente das mulheres que aderiram a esta trincheira não pode ser desvinculada do avanço do conservadorismo, a começar pelos EUA pós eleição de Trump. Se em Portugal olharem outra realidade, a das classes trabalhadoras, porque Portugal tem a maior taxa de emprego de força de trabalho feminina da Europa o que vão ver não é a mulher a trabalhar em casa sozinha mas os dois, homens e mulheres, exaustos.

A carta Deneuve abriu, quer se queira quer não, um debate urgente. O do papel do Estado nas relações amorosas. E outro, tão ou mais importante, o das questões de modo de vida. Que seja uma mulher com posições políticas conservadoras a dar o mote não nos deve surpreender. A França tem uma tradição saudável de defesa dos direitos contra o Estado. E é um dos países do mundo onde por causa da cultura, dos direitos sociais, do laicismo a psicanálise é mais difundida. Com ela aprendemos como todos, homens e mulheres, somos ainda tão limitados na construção das nossas relações afectivas.

O assédio sexual é na maioria dos casos assédio moral. Desvinculá-lo do moral retira-lhe a carga de totalidade das relações sociais de trabalho e dominação para resumir a uma questão de género. O problema em suma não está na crise do capitalismo e de como este na sua fase de declínio destrói a vida e afectos mas na «natural» violência do homem. Ou seja, o problema não estaria nos locais de trabalho hierarquizados mas no homem. O que choca directamente com a realidade – é só irem a uma fábrica de homens operários ver como são tratados pela gestora – mulher -de recursos humanos…Submissão, terror psicológico, ameaças, vigilância apertada, sanções – é isto que faz uma doce mulher num lugar destes a milhares de homens, seus subordinados. E também o fazem muitos homens, a muitas mulheres. Mas o tema não pode resumir-se a homem mulher porque isso simplesmente ignora as alterações no mercado de trabalho estes 60 anos.

Dito isto o que se passa com os direitos das mulheres nos países do sul global devia obrigar a tomada de posições irredutíveis por parte dos nossos governos como ruptura das relações diplomáticas, são proibidas de exercer direitos elementares na Arábia Saudita, violadas massivamente na índia, impedidas de sair à rua como e quando querem em grande parte do mundo. Estarei nas ruas contra isso. A favor da gestão do preço da força de trabalho em Hollywood..enfim…Não chorarei por ti Hollywood.

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