Testemunho tocante da esposa de um trabalhador da Auto Europa, Susana Talete

O testemunho tocante da esposa de um trabalhador da Auto Europa, Susana Talete:

“Enquanto os alemães lutam para dar um passo em frente, nós tentamos não dar um passo atrás. As mentes tacanhas que acham que os trabalhadores da Autoeuropa são uns mandriões que vão acabar com a fábrica e consequentemente “dar cabo do País”, são as mesmas que mostraram esta “solidariedade” nojenta (desculpem, não encontro outra palavra) com os funcionários públicos quando lhes diminuíram os ordenados, aumentaram o horário de trabalho, diminuíram o valor das horas extraordinárias e congelaram a progressão nas carreiras. Nas duas situações (AE e Função Pública) estamos a dar passos atrás. A diferença é que os cortes na função pública diminuem a despesa do Estado (e supostamente, mas mesmo só supostamente, equilibram as finanças do País). Impor (entenda-se obrigar, porque é disso que se trata) o trabalho ao sábado, sem o devido pagamento como trabalho extraordinário, na AE, não vai encher os cofres do Estado Português, mas sim de um grupo económico (e eventualmente da administração que deverá ganhar um prémio chorudo se atingir os objetivos).
Outra questão é o facto de, para uma mãe ou pai autoeuropeu divorciado ou solteiro, ser difícil ficar com a guarda dos filhos durante a semana devido ao trabalho por turnos. É certo que o contrato já previa o trabalho por turnos e, portanto, é um horário aceite pelo trabalhador. Até agora, tinha o fim-de-semana inteiro para usufruir da companhia dos filhos. Agora já não vai ter, porque em nome da produção e do lucro PRIVADO, é “estritamente necessário” que se fabriquem carros aos sábados e, daqui por uns meses, provavelmente, ao domingo.
E, finalmente, como mulher de um trabalhador da AE, se eu precisar de trabalhar a um sábado (por opção própria e remunerado como trabalho extraordinário), vou colocar os meus filhos numa IPSS onde eles não conhecem ninguém, definida pela Segurança Social? Obviamente que não. Obviamente, não vou eu trabalhar. E como vou fazer para me desdobrar, sozinha, em diversas atividades que os miúdos têm ao fim-de-semana e que deviam fazer em família? E o que vou dizer ao meu filho quando ele ficar triste porque o pai não o vai ver no torneio de futebol? De certeza, que só me vai ocorrer uma explicação com um vernáculo impróprio para os ouvidos de uma criança. Tenho vergonha e revolta porque os meus filhos estão a crescer num País em que as entidades patronais fazem o que querem, com a conivência dos poderes instituídos e o aplauso de parte da população.”

Publica em A Casa

acasaonline.pt

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