Vamos para Marrocos

Gosto muito de Marrocos. Não quero ser a «nova do Restelo», fiz o país de ponta a ponta, comi como só no Mediterrâneo se pode comer, fiquei estupefacta a ver os azulejos, as pessoas na rua, a arquitectura, a medina de Fez – a medina de Fez foi uma das coisas mais interessantes que visitei em toda a minha vida, um salto histórico de 400 anos, pelo menos. Também achei uma parte dos homens umas melgas sem paralelo, não nos largando nas ruas, gritando «gazelle» a toda a hora (ali não distinguem piropos de obsessão repetitiva) – e o cheiro nauseabundo, já que saneamento básico não há. Mas voltaria a Marrocos, sem duvida – tajine de Borrego e um passeio no mercado de Essaouira e eu resisto – ainda que por poucos dias – à falta elementar de higiene.
 
Mas a ver António Costa acompanhado de empresários para visitar uma monarquia despótica onde os dirigentes sindicais são presos, lembro-me como gostaria de ter um primeiro ministro que um dia viajasse acompanhado de comissões de trabalhadores e sindicatos (democráticos, claro), e falasse de direitos laborais, culturais, sociais e humanos em vez de “oportunidades de negócios”. Esta ideia de que a função de um Governo é viajar num avião carregado de empresários, que se tornou moda nos últimos anos, é mais um daqueles absurdos que já todos tomam por normal e eterno – sempre terá existido. Falso. O “desde sempre”, só para esclarecer, tem poucas décadas, há 30 anos os impostos eram sobretudo para o Estado prestar educação, saúde, cultura; e as empresas privadas, como privadas que são, faziam sozinhas os negócios que queriam e podiam, no avião deles, não esperavam boleia do Governo, que actua assim no estrangeiro como um “facilitador de negócios privados” para usar uma expressão conhecida do jornalista Gustavo Sampaio. O Estado só faz sentido enquanto instituição se o dinheiro que colecta é público e destinado a serviços públicos – a desejos privados deve corresponder dinheiro privado. Eu posso não gostar, opor-me politicamente, mas não posso proibir um empresário de ir produzir a baixo custo para Marrocos, posso porém opor-me frontalmente a que o dinheiro dos meus impostos seja para este fim. E oponho-me. Lamento insistir contra a normalidade mas a função de um Governo é o bem público, do privado cada um trata – chama-se «mão livre do mercado», já dizia um velho liberal, Adam Smith. A mim pesa-me cada vez mais a mão pesada do Estado a defender o mercado. Volta Smith, ajuda-nos a explicar o óbvio.
 
Como António Costa é um socialista, e eu acho socialismo uma palavra linda – igualdade e liberdade – sugeria-lhe dar um voltinha no Rif, as belas montanhas, onde um protesto a favor da democracia levou milhares às ruas durante 8 meses este ano e o Rei mandou prender centenas. As prisões vêm no Le Monde e no New York Times, desta vez nem se pode dizer que não se sabia…Mas, pelo sim pelo não, caso António Costa queira entrar comigo para o clube da defesa dos direitos humanos, contra as ditaduras, deixo aqui o link – as manifestações foram, diz a insuspeita agência France Press, contra a “corrupção, o desemprego e a repressão».

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