Revolta e Relação

O António disse-me um dia que a revolta, a revolução, é essencial para nos tirar da depressão. A revolução evita a violência. O significado desta frase é muito profundo e está relacionado com o amor.

Explicar por alguém o que esse alguém pensa, que está felizmente entre nós, é ousado, para não dizer irresponsável. Como sou creio já amiga, aprendiz serei sempre, e escrevi com António um livro, deixo esta nota tão curta.

Simplificando muito o que ele diz é o seguinte, quando vivemos uma experiência colectiva, relação, a dois no amor, em família, no bairro, no trabalho num sindicato, estamos numa relação (cuidar de e ser cuidado, sublinho cuidar e tão importante como ser cuidado, se não é narcisismo, não é relação). Uma das razões porque fizemos um livro juntos, entre outras, foi esta simbiose uma vez que eu sabia historicamente que o país foi muito mais pobre e mais feliz em 74 e 75, não porque as pessoas eram pobres (eram-no ainda mais em 1960 e tristíssimas) mas porque tinham um sentido de esperança, de mudança, de acção, de relação colectiva na vida social e política. E comparando hoje com pessoas que estão menos pobres mas muito mais desesperadas a infelicidade é muito maior, a depressão é endémica; e porque entre os activistas sociais e dos locais de trabalho me apercebi que os dirigentes – os que “cuidam de” – são menos deprimidos do que os que estão sós, sem assumir responsabilidades pelos outros – a epidemia individualista é também isto, gerir pessoas é complicado, mas muito pior é não o fazer.

Um texto de Rosa Luxemburgo sobre os desempregados lembra isto de forma mais brutal, a adesão ao projecto socialista, explica ela, não tira as pessoas do desemprego, dá-lhes um sentido de revolta e de pertença colectiva, agora chegou-me um convite para falar sobre Rosa e eu escolhi «Rosa e a revolução portuguesa, as comissões de trabalhadores e a felicidade». Rosa, a psicanalista. Re-descobri Rosa em Coimbra de Matos, ou Coimbra em Rosa, leiam a entrevista dele e claro – por favor! – não tomem as minhas palavras como uma explicação definitiva, é uma simplificação que a divulgação cientifica sempre exige. E parte da explicação de um fenómeno – a depressão – que ainda não conhecemos por inteiro.

Mas o Coimbra foi e é revolucionário na psicanálise uma vez que na sua clínica e teoria ele rompeu com dogmas, defendendo que mais do que nós, nós somos os outros. É a terapia da relação, ou do amor. Que não nos podemos curvar. Que, vejam bem, um trabalhador não pode dar a outra face quando é alvo de assédio, nem fugir com medo – tem que preparar a contra resposta se não antes da vitória legal ele estará deprimido, com a auto estima destruída. E foi ele também, por isso nos aproximámos tendo dado origem ao nosso livro que não é mais do que o início de uma conversa – Do Medo à Esperança (Bertrand) – que descobriu que nos últimos anos a grande fractura emocional passa-se no trabalho, onde as pessoas vivem torturadas, adoecendo, sem se quer reconhecer que aí está a fonte do problema, pensando que adoecem por outras razões, física e mentalmente. Nem sabendo que estão doentes, na verdade.

O paradoxo arrasador disto é que agora as pessoas vão ao consultório e já não se queixam do amor ou da falta dele, mas do trabalho. Ou seja, deixaram de pensar no que deviam (como viver melhor o amor, a relação) para só falarem do trabalho, o trabalho tornar-se totalitário, absorve a vida toda, para lá dele. É, de certa forma, a descida do reino da humanidade ao da necessidade, a redução do ser humano a debater e questionar apenas necessidades básicas, a involução do homem para o macaco. Fala-se de trabalho, não se fala de amor, de relações. Ficamos tão pequenos como os pequenos e torturantes desafios diários laborais, que contaminam hoje toda a vida mesmo fora do trabalho, que resultam de um sistema de produção caótico, irracional, errado na sua matriz, porque é destinado a produzir o máximo de lucro para uma minoria custe o que custar em relações humanas, e não o máximo de bem estar com o mínimo de desperdício, para todos um patamar mínimo de dignidade e independência material.

A boa notícia é que tudo muda, em 1928 vivia-se o maior optimismo da história depois do boom dos loucos anos 20, até a Europa assinava um tratado de paz em 28, em 1929 o modelo de acumulação mostrou a sua incapacidade de trazer bem estar à humanidade, e em 1934 nos EUA faziam-se as primeiras sit down strikes, o mais perto que o jovem e pujante capitalismo norte americano viveu de uma revolução. A história acelera. E nesse momento aprende-se em dias o que em anos se recusou aceitar, que a humanidade exige de nós um compromisso colectivo e abnegado de transformação diário se não queremos perecer.

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