A inteligência sob ataque (A Tarde, 24/11/2017)

No Brasil exposições, palestras, conferências têm sido atacadas por bandos de extrema-direita. Vale a pena ler o artigo em baixo.
 
«A inteligência sob ataque (A Tarde, 24/11/2017)
Carlos Zacarias de Sena Júnior, historiador
 
Os casos se sucedem e acendem o sinal amarelo para todos os setores democráticos e progressistas no Brasil. Na UERJ, uma palestra sobre o centenário da Revolução Russa foi invadida por um minúsculo e barulhento grupo de extrema-direita, que dirigiu impropérios à professora e inviabilizou a atividade. Em Porto Alegre e São Paulo, exposições artísticas em museus foram violentamente atacadas nas redes sociais e seus curadores e artistas ameaçados, acusados de estimularem a pedofilia e a zoofilia. Há duas semanas, a filósofa norte-americana Judith Butler, um dos nomes mais importantes da academia nos estudos de gênero, foi vítima de uma série de ataques por ocasião de sua participação no colóquio “Os fins da democracia”, organizado pela USP na capital paulista.
O nível da estupidez é de tal monta que, por vezes, contamina até às instituições que deveriam zelar pelos direitos inscritos na Constituição. Na Universidade Federal de Ouro Preto, o professor André Mayer, coordenador do grupo de pesquisa Liga dos Comunistas – Núcleo de Estudos Marxistas, devidamente cadastrado no CNPq, é vítima de um processo movido pelo MPF numa atitude digna dos tempos do macarthismo.
 
A escalada de ódio é crescente, uma expressão da ignorância e da estupidez que, nos últimos tempos, perdeu a vergonha, e resolveu exibir seu orgulho extremista nas ruas. Na UFBA, docentes e estudantes dedicados aos estudos de gênero foram ameaçados de morte e de outras violências apenas porque se dedicam ao tema, numa demonstração de que o ódio não é apenas simbólico, mas bastante real e ameaçador.
 
A dimensão do retrocesso que se vive hoje no país vai muito além das medidas adotadas pelo desgoverno que hoje ocupa o Planalto. Há muitas explicações possíveis. Uma delas, que se pode tomar por analogia de momentos em que o extremismo de direita recrudesceu, diz respeito ao desespero de setores médios advindos da incapacidade de compreenderem a crise, o que os leva a enxergar “no outro” os responsáveis pelo que lhes parece ser a degeneração moral, econômica e social do país. Na Alemanha dos anos 1930 “o outro” eram judeus, comunistas e homossexuais. Aqui, são negros, feministas, LGBTs e militantes de esquerda.
 
É óbvio que não se pode superestimar o fenômeno, hoje limitado a minorias enfurecidas, mas subestimá-lo parece ser ainda mais nocivo. De uma forma ou de outra, setores ligados aos movimentos sociais, preocupados com o nível de violência que ameaçam o que nos resta de democracia, começam a se mexer. Na UFBA, além das medidas adotadas pela reitoria e entidades representativas, grupos de pesquisas se articulam para defender a democracia e os colegas. Num campo mais amplo, a Frente do Povo sem Medo realiza neste sábado (25) um ato público na região do Iguatemi para lembrar os crimes cometidos pela ditadura e para mostrar aos grupelhos que pedem intervenção militar que o espaço das ruas nunca foi das direitas.»

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