A política das doenças

Metade da entrevista à Ministra do Mar no Expresso é sobre o cancro que teve. A capa é sobre o cancro e o destaque é do mais indigno que vi em jornalismo: «a Ministra gosta de um bom combate, sejam os estivadores seja a doença». Cito. É isso mesmo que está lá escrito. Ela gosta de ter tido um cancro? E os estivadores são como a doença, um cancro? A política é o cancro da Ministra?
Há estivadores com cancro, há estivadores com filhos com doenças gravíssimas, estiveram, estivadores e suas mulheres, 38 dias a lutar com filhos pequenos, doenças, choros e abraços contra um despedimento colectivo. Aliás, como investigadora das relações laborais no porto de Lisboa apercebi-me destes dramas por sugestão ou indício, porque nunca o perguntei nem – sublinho – me contaram tal. Nem eu podia fazer nada, não sou médica, esposa, ou filha. Nunca os estivadores fizeram a indignidade de contar as doenças privadas para apelar à solidariedade pública, durante a greve de Maio de 2016. Esta política de afectos – que remete à manipulação emocional da vida cívica do país – levou-nos desta vez à infâmia. Em vez de política debatem-se abraços, agora fomos mais longe, entrevistam-se doenças trágicas. A minha crítica à política para o mar desta Ministra em momento algum se confunde com a minha compaixão por ela, se está doente. Não se ganham combates políticos desejando aos outros a doença ou a morte, sempre fui contra isso, mesmo ao pior dos inimigos. A morte e a doença não são vitórias para ninguém. Mas também o inverso é fulcral: não se ganha respeito político apelando à compaixão perante doenças graves.

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One thought on “A política das doenças

  1. Sim, percebo o seu ponto de vista. A doença da ministra é irrelevante para nós, assim como o é a doença de uma “celebridade”. O que interessa perceber e perspectivar nesta questão é que no tempo do pai da ministra uma doença destas significava uma sentença de morte, contrariamente ao que se passa agora em que a maior parte dos casos a cura é célere. Isto podia ter dado origem a uma entrevista realmente diferente, focada, por exemplo, em explicar como este sucesso científico se relaciona com o crescimento económico, com o aperfeiçoamento nos países desenvolvidos – e explicar porque não, nos outros – todos os anos a fronteira tecnológica entre o desconhecimento e a descoberta se esbate, permitindo fazer as coisas melhor. Ela até podia aproveitar a entrevista para falar de transhumanismo e posthumamismo. Se soubesse. Não acha?

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