O Mito da Auto-Europa

Tiago Franco, cujo testemunho aqui publico, foi engenheiro na Auto-Europa, formado nas Universidades públicas portugueses, custeadas por todos nós, emigrou, está na Volvo na Suécia. Merece ser lido, porque se este exemplo é a melhor empresa do país imaginem o que é o pior… É mais um caso de fuga de quadros, que não têm aqui quaisquer perspectivas sérias de futuro, enterradas em montar peças de lego sem valor agregado, para exportações fáceis, sem inovação, ciência, e com baixos salários, é mais grave quando ontem li as declarações de Ana Catarina Mendes do PS que, em vez de defender modelos de produção sérios, com qualidade de vida para quem trabalha, defender quem a elege, ameaçou – literalmente – os trabalhadores com deslocalização. Sou insuspeita de quaisquer simpatias pelos PCP, acho apenas lamentável esta seja a posição do PS, o estado da moral de quem está à frente dos destinos do país, uma espécie de funcionários que seguram o chicote do terror do desemprego sobre quem trabalha, sem ter uma palavra a dizer aos accionistas da Auto-Europa sobre mobilidade social, condições de vida dignas, fuga de cérebros, produção em massa repetitiva, bancos de horas, vida sem família e planos pessoais. Tiago Franco trabalhou no departamento de Engenharia de Qualidade da Auto-Europa entre 2001 e 2006 (Buy Parts assim se chama na AE). É formado em engenharia electrónica e está agora envolvido no projecto de táxis eléctricos para Londres. Obrigada a ele pelo testemunho.

“Interessa-me mais abordar o linchamento público dos funcionários da autoeuropa e como a ignorância nos prejudica enquanto povo.
Compreendo que a informação que circula não vem carregada de detalhes e para a opinião pública passa a parangona de que os funcionários não querem mais dinheiro para trabalhar aos sábados. São uns calões e ganham balúrdios. Ponto final. É isto que chove nas redes. Não sei porque insisto em ler comentários de notícias mas vou assumir, para me sentir melhor, que é uma espécie de guilty pleasure da azeitonice.
Li coisas como: “não querem trabalhar aos sábados? Então devíamos fechar os hospitais ao fim-de-semana para os gajos da autoeuropa!” ou “mas quando querem pão fresco ao sábado o padeiro não diz que não, seus chulos!”. Entre outras pérolas dignas de qualquer boca numa taberna da Madragoa, como se bens alimentares ou cuidados de saúde se pudessem escolher no calendário. Ou como se uma fábrica fosse um serviço aberto ao público e dependente de horários melhores para visita.
Compreendo que exista míngua de emprego no nosso país e que muitas pessoas se esfolem para aguentar cada mês, mas isso não nos pode retirar a lucidez de entendermos o que é a luta dos trabalhadores pelos seus direitos. Se os funcionários da AE cederem sempre a pressões, naquela que é a empresa modelo do país, o que acontecerá a cada um de vocês que trabalha em micro-empresas onde os trabalhadores nem piam?
A conversa de “se não aceitarem a produção do modelo X vai para a fábrica Y” é mais velha que o obrar de cócoras e é usada desde sempre. Ouvi isso há 12 anos na altura do modelo EOS e depois com o Scirocco. Agora ouvem com o T-roc ou lá como se chama a lata nova.
Em cada negociação lá se trocava trabalho extra por férias ou dias por aumentos congelados e por aí fora. As greves foram sempre evitadas e a produção sempre a crescer com novos modelos. Mas até quando? Até quando se dá asas à imaginação para aceitar mais trabalho sem dinheiro que se veja?
Quem agora chama nomes aos funcionários da AE já trabalhou numa linha de montagem? Já teve duas pausas de 7 minutos por dia para mijar? Já passou 20 anos todo dobrado a fazer os mesmos movimentos? Se acham que é tudo fácil e maravilhoso, porque não vão para lá? Entre 2000 ou 3000 que lá trabalham deve haver espaço para os génios do comentário no FB.
O que é que acham que um operador de linha, um técnico ou um engenheiro ganham na AE? Eu respondo: uma merda. Ganham uma merda. Ganham aquilo que alemão algum aceita na casa mãe, com condições que sindicato nenhum permite no desterro de Wolfsburgo.
O governo português deu incentivos por mais de uma década para a VW ter a fábrica ali. Depois tiveram mais uma década de salários baixos, aumentos miseráveis e down days. Em 4,5 anos a trabalhar ali, o meu salário aumentou 15 eur líquidos. Um operador de linha trazia 800 eur para casa, um técnico um pouco mais, um engenheiro cerca de 1100. Depois criaram uma empresa de trabalho externo (autovision) para reduzirem ainda mais os custos com os contratados e terem menos responsabilidades sociais.
Portanto…se 10 anos volvidos a técnica é a mesma e continuam a querer apertar quem trabalha, eu acho muito bem que não aceitem sábados obrigatórios e muito menos se não forem pagos como trabalho extraordinário.”

3 thoughts on “O Mito da Auto-Europa

  1. (Direi apenas mais isto, neste blogue…)

    Quando toca a assuntos sérios, a maior parte dos comentários depreciativos, a mandar abaixo, a criticar, insultar etc, que se vêm na Internet, não são da autoria de pessoas genuínas (razão, até, pela qual não se vê o mesmo a acontecer fora da mesma, no “mundo real”).

    O poder estabelecido (leia-se principais partidos políticos e grandes interesses económicos que aos primeiros dão ordens) *paga* a pessoas para andarem na Internet a tentar desestabilizar toda a gente que se insurja contra – ou denuncie factos incómodos sobre – esta podre ordem das coisas.

    O que eu aqui digo não é nenhuma “teoria da conspiração”. Mas, é antes algo que já foi até denunciado por jornalistas profissionais portugueses, tal como se pode ver aqui: http://blackfernando.blogs.sapo.pt/para-quem-duvidar-de-que-existem-trolls-88000

  2. O trabalho ao sábado e domingo sempre foi dia de descanso cá em Portugal, nas empresas, onde trabalhei. Se a, administração quer que trabalhem ao sábado, paguem horas extraordinárias. Mais penso,que operador de linha de produção ganha 800 euros, para uma empresa como a Autoeuropa é pouco, e um engenheiro ganhar 1100 euros numa autoeuropa, é muito pouco. Ameaçam com a deslocalização da empresa para um País de baixa tributação, então que se vão embora. Nós queremos ser dignamente remunerados por trabalho efetivo que se desempenha.
    Mas penso, que deve haver negociação quando a comissão de trabalhadores tomar posse e continue a ser na senda da anterior que fez um bom trabalho. Não sou comunista, nem penso que o PCP deva apertar muito com quem lá está.
    Ireneu Santos

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