Livre para quem?

Em Amesterdão alugam-se apartamentos de 35 metros quadrados onde é proibido cozinhar; em França os meus colegas vivem em apt de 30 metros quadrados, 70 anos depois dos estudos em ratos no pós guerra terem provado que ratos em espaços minúsculos muitos ou poucos e mesmo com muita alimentação entram em conflito – em suma, necessitamos de ar, vazio, espaço; no Rio de Janeiro trabalhadores expulsos do centro vêm trabalhar ao Rio, dormem na rua, e ao fim de semana voltam às suas casas. Chamam-lhe crise urbana. Ainda sou do tempo em que ao lado dos direitos políticos – direito ao voto – tidos como essenciais, estava o direito a ter um tecto, aliás, sou do tempo, ainda hoje, em que quem não tem direito a um tecto não tem de facto acesso à democracia. A onda de violência contra os turistas em Espanha, que não subscrevo – não tenho admiração alguma por violência gratuita ou aquela tese da violência entre trabalhadores como sintoma da violência do Estado e outras palermices – tem um fundo muito elementar, o drama não são os turistas (eu sou turista em muitos lugares) mas as rendas da propriedade em busca desesperada de valorização fora da produção – onde cai a taxa de lucro. Estas rendas estão a tornar a cidade para a maioria dos habitantes – de Paris ao Rio – num espaço inabitável para quem esteja lá mais do que 3 dias. Quem desdenhava das condições de habitação na URSS (e eu nunca as defendi, para mim casa, ampla, intimidade são direitos essenciais e esses não estavam assegurados na URSS) em que famílias viviam sem uma casa própria deve olhar agora as maravilhas que o “investimento” fez à vida dos cidadãos no glorioso mundo da economia livre. Livre para quem?

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2 thoughts on “Livre para quem?

  1. Isto não está muito bem explicado! Pois não?
    De que maneira as rendas como sucedâneo do investimento produtivo interferem com o ABSURDO que é a promoção e a realização selvagem turística?
    Experimente ir a Veneza e ser assaltada nos dois sentidos, o da visão e da audição, no momento em que um monstro de um barco de cruzeiro entrar no coração da nossa querida cidade! É horrendo. Agora imagine a destruição que, este monstro e todos os outros como ele, fazem às infraestruturas antiquíssimas da “Serenissima”…
    O que é que isto tem a ver com gentrificação?

  2. Pingback: Raquel Varela: é o sol na eira e a chuva no nabal | perspectivas

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