Politicamente correcto e inútil

O debate sobre o racismo em Portugal está marcado pela guetização, fruto da fragmentação política. Facto que os movimentos anti-racistas e seus activas se recusam a reconhecer. Os movimentos anti-racistas têm feito o possível para tirar o carácter de classe às suas lutas, o que, infelizmente, é errado analiticamente e condena a luta anti-racista ao fracasso. Analiticamente é errado porque coloca na pele um problema que é desde logo e hoje sobretudo social, de classe – uma parte da sociedade é racista, mas uma parte muito maior, quem sabe maioritária tem medo (e nojo) dos pobres, não por serem negros mas por serem pobres. É assim que modelos negras bonitas, um Obama inteligente, uma criança negra bem alimentada, vestida e limpa são acarinhados, mas se estas pessoas tiverem olhos exaustos, anémicos, roupas velhas, olhar esquivo, falta de higiene, ou seja, as marcas da pobreza na cara, são rejeitadas. Um interessante estudo internacional demonstrou aliás o mesmo em relação aos imigrantes – os que são rejeitados são só os pobres, não por ser imigrantes, porque os imigrantes ricos são bem recebidos, mas por serem pobres.
 
Dá-se a coincidência, alicerçada num racismo histórico do país – evidente, isso não está em discussão -, de que os negros em Portugal são mão-de-obra baratíssima em sectores indiferenciados (obras, limpeza, restauração), altamente rotativa, e foram largamente acomodados em bairros sociais, onde não há qualquer mobilidade social, mas os ciganos e – a maioria dos moradores de bairros sociais, brancos e pobres – não são tratados com mais respeito pela polícia. A filosofia dominante democrático-liberal tem insistido numa visão social que fragmenta a ideia de classe em género, pele, etnia, nação e isto é funcional à manutenção do status quo porque afasta os trabalhadores brancos dos trabalhadores negros. Nos últimos anos a coisa ganhou contornos patéticos com movimentos negros a reclamarem que só eles negros podem falar dos negros – em particular no Brasil assisti perplexa a isso. Tão forte como os movimentos de mulheres que proíbem a entrada de homens ou os intelectuais de esquerda que não suportam que intelectuais de outros países venham falar do seu. A pele, o género, a nação, tudo menos a classe.
 
Acarinhar esta visão é um erro porque ela oferece a ideia de que pode-se acabar com o racismo (e com a xenofobia e o machismo) sem acabar com as brutais divisões de classe e origem social, e isso é historicamente falso, na verdade o caso mais paradigmático, a África do Sul, está aí para o demonstrar da pior forma. Não tenho dúvidas que os movimentos anti racistas hoje não abraçam a tese do racismo/classe porque assim é menos polémico, mais aceitável para o Estado, deixa de ser uma luta de carácter económico e passa a ser uma reivindicação de direitos democráticos. Pura ilusão. Porque enquanto os negros viverem num gueto, e servirem às mesas, como se fosse uma marca genética de pobreza eterna, ainda que num país onde culturalmente tenha sido abolido o racismo, a sociedade vai olhar na sua maioria e ver…negros a servir às mesas. Porque não se pode culturalmente abolir o racismo quando é uma marca cultural a própria pobreza dos negros.
 
Já agora, conto-vos uma curta história, que durou meio século. O apartheid nasceu nos anos 30 e 40 neste contexto histórico – a exploração das minas de ouro da África do Sul era muito profunda e só compensava aos que se tornaram donos daquelas terras se o trabalho fosse muito barato porque os custos de investir em tecnologia ou trabalho mais qualificado não eram compensados pela profundidade dos minérios. Tal como hoje o petróleo no Brasil, em parte, para dar um exemplo. Então começa uma onda de greves organizada pela Oposição de Esquerda/Trotskistas expulsos da URSS e, antes, das perseguições judaicas. A África do Sul vai ter então uma das maiores organizações trotskistas do mundo. A greve, inspirada nos Wobblies norte americanos, o primeiro sindicato a ter trabalhadores brancos e negros nos EUA, vai juntar justamente negros e brancos e elevar os salários, é aí que os empresários das minas da África do Sul com o Estado decidem pela segregação formal, usando a polícia, a lei e o Exército para dividir os trabalhadores, nas minas onde depois vai-se usar trabalho forçado também de Moçambique até 1974 – embora o regime actual, contra a ciência histórica, goste de afirmar que o trabalho forçado dos negros em Portugal acabou em 1961, como se a lei tivesse mudado a realidade económica.
 
Penso que esta guetização ficou espelhada no debate Prós e Contras a que assisti fora do país, bem como as suas repercussões. Fátima Campos Ferreira convida um painel excepcional, contraditório, que fez um muito bom debate e foi apedrejada porque terá dito a uma cigana que ela era ruiva. O acessório e o superficial que insistem em utilizar, e que a direita hoje usa como argumento que tem força não só na direita mas fora dela. Está muita gente cansada de se olhar para os problemas pela rama, sem ir ao fundo das questões, e isso tem sido obra da esquerda pós-moderna, que a direita cavalga com apoio de massas. E tem apoio de massas não porque estão todos contra o politicamente correcto, mas porque muitos estão contra o politicamente inútil. É mesmo inútil num debate de fundo que a sociedade finalmente começou a fazer atacar a jornalista que o fez porque ela perguntou «a Sra. é ruiva e cigana?». Eu teria pensado o mesmo, não é comum ver uma cigana ruiva, mas é comum ver discussões patéticas tomar conta dos problemas importantes.
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3 thoughts on “Politicamente correcto e inútil

  1. Raquek Varela, nao sabe di que falaPerdeu uma rica oportunidade de manter a sua boa reputação, porque até a tinha como um dos valires de referência do país. Os neus filhos são limpos, muito bem vestidos até ( rouoas de marca , se é que isso interessa, temos q.b. para viver, casa própria, 2 carros, casa de férias, e pergunto-lhe lsso serve lhes para alguna coisa, acha que são convidados para festas de aniversário! ? Ouvir bicas racistas do mais ofensivo que se possa imaginar!?
    Os meus filhotes têm resistido a isto tudo com galhardia e muito trabalho meu. Sou licenciada, fui educada em colégios privados, mas faço questão que eles andem no público! Quero que levem o banho do racismo Português desde a nascença, assim , mais tarde não andarão de psiquiatra em psiquiatra a tentar achar oque há de errado com eles.
    É péssimo ser-se pobre. Mas ser pobre e Negro é muito muito mais, acredite

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