Os Corticeiros

Nunca me regozijei com a morte de ninguém. As vitórias e as derrotas políticas não se medem pelo fim inevitável, a que todos chegaremos. Mas na morte, seja de quem for, deve haver balanços históricos e todos os balanços são feitos de erros e acertos, papel pessoal e familiar – que no caso de Américo Amorim diz respeito só à sua família e próximos; e papel social – que me interessa muito, como historiadora do trabalho e diz respeito a todos nós, como cidadãos do país. A morte não nos iliba dos julgamentos históricos, nem é uma passaporte para a eternidade mítica.
Fiz parte da equipa que há uns anos produziu este documentário – Os Corticeiros. São milhares de homens e mulheres ao longo de décadas que trabalharam na fileira da cortiça. Da Companhia das Lezírias às fábricas de São João de Ver. A ver, porque onde há reis há súbditos – e isso é justamente o que há de errado neste país. É que para haver um homem muito rico, com uma fortuna acumulada que corresponde a mais de metade do SNS de 10 milhões de pessoas – que controla um monopólio, preços de produção e distribuição e tem de prenda uma empresa pública super lucrativa – tem que haver milhares de pobres, ao longo de muitos anos, e que ainda hoje trabalham 8, 10 horas por dia – trabalham, não brincam – e não conseguem sustentar a família, como se vê pelos testemunhos aqui, recolhidos nas fábricas “empreendedoras” da cortiça. Hagiografia é coisa de ditaduras. Começa a ser cansativo, para os historiadores insuportável, o servilismo acrítico com reis, chefes, patrões e papas: «Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.». Isto é o artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos do Homem de…1789. Quando é que vamos parar de andar para trás?
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2 thoughts on “Os Corticeiros

  1. “mas fugi dali porque a média de idades e o corte de cabelo era congelado no tempo – não perceberam bem o significado de on the road.”
    Esta é do seu ‘face’ – coisa a que eu não pertenço e que como Phobe Philo afirmo “i’d rather go naked than have facebook”. Mas não me importa quem tem. Sem problema.
    Apenas transcrevi e quero dizer que muito apreciei ler. É por estas e outras que a sigo, Doutora Raquel, como um bom e reconhecido admirador.

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