A história não é um sarcófago

Este ano são os 150 anos da publicação de O Capital de Karl Marx e os 100 anos da revolução russa. A maioria dos eventos que assinalam dois dos acontecimentos mais marcantes para a história da humanidade serão celebrados dentro das portas da academia, nas mais prestigiadas universidades dos países ricos, o que demonstra a fraqueza actual das ideias políticas (organizadas) de ruptura com o actual modo de acumulação no seio do movimento dos trabalhadores. O socialismo é quase só científico, paradoxalmente; é abraçado como objecto de estudo por intelectuais. Estarei em alguns destes congressos mundiais, onde aceitei novos desafios teóricos – a revolução como objecto global de estudo; a centralidade da acumulação por métodos económicos e não extra-económicos e portanto o papel dos trabalhadores produtivos e da política organizada -, que me ocupam os dias de estudo com entusiasmo mas o sentimento amargo do desencontro é inevitável. Desde que abriram os arquivos soviéticos nenhum trabalho publicado corroborou a tese de que a revolução russa – que mais mudança trouxe ao mundo – tinha em si a semente do termidor estalinista, da brutalidade da escassez dirigida pela burocracia. A crise de 2008 fez O Capital ganhar respeitabilidade incontornável, até nos corredores do senso comum económico mais superficial, cujas baboseiras ruíram com o colapso da maior empresa do mundo e do maior banco do mundo, a GM e o Bank of America. Porém, 20 anos depois de vários trabalhos mostrarem uma Rússia dominada até 1927 por conquistas salariais, contratos colectivos de trabalho, práticas democráticas nas fábricas, os trabalhadores estão esmagados hoje pela visão neoliberal de fim da história. A academia permitiu-nos um tempo de estudo fabuloso, mas quem reconhece o precipício económico que espreita na próxima crise cíclica não tem razões para celebrar que o mais profícuo conjunto de ideias progressistas esteja hoje confinado a uma sala de conferências, por mais prestigiada que seja. Lénine – cujo último ano de vida foi passado a tentar afastar Estaline do poder, que descreveu como um rude, bruto em seu testamento – era unanimemente descrito pelos seus biógrafos como um homem que se preparou para as vitórias apoiando-se na possibilidade de ter os meios mais escassos à disposição. Optimismo estratégico, pessimismo táctico. No mínimo deviam dar-lhe a honra de acabar com aquela múmia indigna. A história não é um sarcófago.

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