A Monocultura Florestal e as Bacias hidrográfias

Por Tiago Lucena

Muitas pessoas, mesmo no campo, acreditam que a água aparece por milagre divino, algures numa serra uma nascente misteriosa jorra água que gera um rio. Porém, a água tem uma explicação perfeitamente simples e óbvia, e quem a entende sabe que esta é plantada. Leu bem, a água é semeada e plantada.

Não é por acaso que os rios nascem em montanhas e serras. É a geografia natural desses vales que compõem as serras que geram e alimentam estes rios. Uma realidade cada vez mais comum no interior, sobretudo nos últimos anos, é a seca cada vez mais frequente dos ribeiros secundários e dos fios de água menos fortes. No entanto, quando observamos os trabalhos de pedra nesses vales reparamos que a própria construção – as chamadas levadas de água – evidenciam que muita água por ali passava. Mas hoje estes ribeiros secam durante o período mais quente – e menos chuvoso – e muitos destes ribeiros já nem correm de todo.

A explicação é muito simples e encontra-se numa expressão pouco conhecida, e usada, em Portugal, mas defendida e protegida em muitas outras partes do Mundo: Bacias hidrográficas. Basicamente, as serras, os vales, as montanhas agem como um chapéu de chuva invertido e as florestas nativas como uma esponja. A floresta nativa, biodiversa, deposita no chão muita matéria orgânica – também biodiversa. Esta matéria orgânica gera uma camada muito fina neste planeta, a que chamamos solo: um processo natural e vivo de decomposição, resultante do trabalho de diversas bactérias, fungos e minhocas (entre outros) e a base de toda e qualquer civilização – para não dizer de toda a vida existente no planeta. Este é o processo por excelência na criação de nutrientes que mantém os solos vivos e alimentam a flora (e a fauna) que compõe a própria floresta. É um sistema fechado de auto-fertilização, tal como funciona o planeta. Esta camada age como uma esponja, segurando a água e escorrendo a mesma lentamente ao longo da encosta – até encontrar o centro do vale onde toda esta água gera e alimenta um rio.

No entanto, numa luta constante contra a natureza – cuja principal característica é a biodiversidade, vulgo policultura – o Homem insiste em plantações monoculturais. Em Portugal essas plantações florestais resumem-se, numa generalidade esmagadora, ao Pinheiro e ao Eucalipto – ambas espécies não nativas. Além de todos os problemas resultantes desta atitude de lutar contra a Natureza com estas produções – perda de biodiversidade, eliminação de ecossistemas, entre outros, nunca considerados no impacto ambiental destas actividades – estamos literalmente a secar o País pois estas monoculturas não conseguem desempenhar a função que referi antes. O Eucalipto é sabido que consome uma quantidade absurda de água; já o Pinheiro em monocultura não tem a capacidade de gerar solo como uma floresta biodiversa. Assim, é perfeitamente espectável – e visível a olho nu – a realidade com que me deparo constantemente: vales que evidenciam a passagem de água no passado, mas que se encontram secos e desprovidos de humidade no solo.

Apenas a floresta biodiversa nativa, marcadamente policultural e altamente produtiva, tem esta capacidade natural que criar e manter uma camada de solo que mantém a alimentação dos caudais ao longo do ano – resultando sobretudo num caudal médio equilibrado ao longo das quatro estações.

Um dado curioso é analisar a diferença de caudais dos rios entre as estações de calor e as estações de chuva. Mesmo os grandes rios começam a ter uma flutuação grande entre estes dois períodos, devido também a tudo o que expus antes. A água das encostas escorre rapidamente no inverno aumentando o caudal, já no verão a falta do efeito de esponja faz com que os rios percam caudal.

Escusado será explicar que Água é a base de toda a vida no planeta, o sangue (e os rios as veias) desta pedra a flutuar no espaço. Talvez esteja na hora de mudarmos a nossa atitude perante a Natureza, pois trabalhando com ela todos ficamos a ganhar.

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2 thoughts on “A Monocultura Florestal e as Bacias hidrográfias

  1. Cara Raquel Varela,

    Este seu post fez-me lembrar o trabalho que foi feito na comunidade Tamera (Odemira) no sentido de inverter este círculo vicioso de que fala (falta de matéria orgânica nos solos -> menor capacidade de retenção de água -> menos vegetação – > maior falta de matéria orgânica nos solos -> etc.)
    Deixo um link com um vídeo muito interessante, na minha opinião, sobre o que fizeram: https://www.youtube.com/watch?v=4hF2QL0D5ww

    Aproveito para lhe agradecer pelo seu blog! Sigo-o atentamente.

    Cumprimentos,
    Rodrigo Matias

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