Portugal a arder…outra e outra vez

19 mortos. Há aldeias isoladas. Pode ser o dobro, já se diz. Uma tragédia. De um lado o poder político que já afirmou “foi uma situação atípica, incontrolável”. Do outro, na SIC, José Gomes Ferreira, conhecido técnico florestal, meteorologista…perdão…comentador SIC sobre economia explica com um google maps os ventos cruzados…Penso de longe se estarei a assistir a uma cena de um filme, que não pode ser verdade – um google maps? «Isto aqui é tudo verde» diz. No meio disto, desta loucura desinformativa, escutamos Domingos Xavier, creio que na RTP 3, lembra-nos que no país há sensatez e seriedade. O docente, investigador em Incêndios Florestais, director do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF) explica que não há nada de atípico. Foi tudo típico. O Mediterrâneo é assim. E é assim todos os anos. Lembrou não um mas vários incêndios com dezenas de mortos no país, disse os anos para salientar que se sabe o que fazer, já se aprendeu, não se combatem fogos, previnem-se, e nesse campo os erros são sistemáticos, ele mesmo publicou não um mas dezenas de artigos e um livro sobre o tema, lembrou que esta tragédia repete-se, é previsível. Portugal tem dois problemas, penso – a escutá-lo. E não são falta de meios e de gente capaz e solidária, como os bombeiros que estão agora de todo o país no terreno a arriscar a vida. Tem um problema de falta de memória e outro de acção política. Sou filha de dois engenheiros florestais. Cresci a ouvir esta frase: «a última coisa que se faz num incêndio é água – a água chega quando tudo o resto falhou». As minhas palavras de profunda consternação para as famílias destas vitimas. Acidente é um piano cair-nos em cima da cabeça – fogos florestais com mortos, feridos, casas ardidas, são a constante no país. E desculpem a dureza com que o afirmo, as pessoas não precisam de abraços, precisamos de crescer, quando somos crianças é que festas na face nos acalmam, a vida adulta é feita de acções e não de palavras, afectos e sorrisos são agradáveis mas não constroem um país, precisamos de políticas reais de ordenamento do território, economia (o que se produz, como, para vender o quê, a quem) e prevenção. Portugal tem alguns dos melhores trabalhos do mundo sobre o tema, guardados nas gavetas académicas de escolas que aliás, algumas, estão em risco de fechar por falta de alunos de silvicultura. Falta-nos coragem política, direcção estratégica, não nos falta gente decente para trabalhar nem saber técnico.

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One thought on “Portugal a arder…outra e outra vez

  1. Parabéns pela atitude e pelas palavras. Vale a pena recordar que infelizmente, não temos homens na política e há pouca coragem para o dizer.

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