A azeitona de Mexia

Um dia um professor universitário de origem madeirense contou-me que depois do 25 de Abril ele e os amigos de 6 anos foram pela primeira vez à escola na aldeia, e ao fim do dia subiam todos os dias à árvore para ver a luz eléctrica ser ligada. E riam. Disse-me, no seu gabinete, a chorar, este homem que hoje coordena um curso internacional, e não é nem foi militante de esquerda: “o 25 de Abril tirou-me da idade média”.
Ao longo de décadas os nossos avós, e os pais dos nossos avós, construíram a EDP, que nasce em 1975 numa nacionalização das várias empresas eléctricas, que passam a estar sujeitas a uma lógica pública e planeada – prestar serviços públicos. São centenas de milhar de horas de trabalho directo de uns e impostos de outros para erguer uma rede que deu à luz milhares de horas de vida extra (o dia deixou de acabar com o pôr do sol), aquecimento, segurança (iluminação pública). Não há amor sem cabana. A electricidade trouxe isso ao país, mais amor. Não porque não se possa fazer amor às escuras, claro, mas porque ampliou o nosso domínio sobre a natureza – o frio, o escuro – porque colocou as máquinas a funcionar, e elas ajudam-nos a produzir mais e melhor. E ganhar por isso tempo ao tempo, driblar os limites da vida. Quando esta rede de barragens, transportes (de carvão, etc.), e outras fontes de energia, cabos da Espanha ao litoral, de norte a sul, estava pronta para devolver aos portugueses parte do esforço que eles fizeram foi…privatizada.
O centrão chamou, mais uma vez, um homem dos seus: António Mexia. Diz a Wikipédia: proprietário, lavrador, advogado, administrador bancário, também no Banco Espírito Santo, e ministro das obras públicas e comunicações de Santana Lopes – um CV invejável. Faz parte do grupo de bons rapazes que há décadas vai gerindo o país privatizando o que é público e anunciando distribuição de dividendos privados como medida do sucesso. Ganhou naturalmente por isso uma Ordem de Mérito das mãos de Cavaco Silva. É, porém, pelas mãos de António Guterres que se dá a primeira privatização da EDP. Até chegarmos aos dias de hoje. São 5 privatizações, creio, e a empresa é um sucesso, naturalmente, porque todos os custos infra-estruturais – rede, fontes de energia e mão de obra formada nas nossas escolas e cuidada nos nossos hospitais – foram pagos pelo público. Entretanto com o esquema de pré-reformas a EDP foi-se descartando dos trabalhadores pagos decentemente, o custo foi enviado para a Segurança Social, nós outra vez, e em troca contrata agora os bisnetos dos que construíram a EDP ao valor de 500 euros – o mercado não dá mais…é pegar ou largar, é só hoje!
Chegámos a este ponto em que a electricidade de um país, de dez milhões de pessoas, está na mão dos detentores das acções da empresa que basicamente estão a borrifar-se se os portugueses gelam nas casas e nas empresas; se as empresas colapsam com a factura de electricidade; se a factura da electricidade é uma renda fixa oculta sob o nome de taxas. A Lancet, prestigiada publicação de medicina, publicou há 4 anos um estudo onde dizia que Portugal tinha uma das mais altas taxa de pneumonia da Europa porque, cito, as pessoas passam frio. Estavam em casas no campo à lareira com 22 ou 24 graus, há 40 anos, agora estão em apartamentos e escritórios na cidade com 12, 14 e 16 graus. Se conhecerem alguém que veio viver para Portugal do norte da Europa ela vai dizer-vos que nunca passou tanto frio na vida como aqui. Porque uma coisa é estar parado com 16 ou 18 graus, outra a mexer numa enxada. O famoso tecido empresarial de PMEs não tem como pagar a factura – algumas delas são PMEs criadas com o desmembramento da própria EDP que inventou umas subcontratações, inclusive de trabalho temporário. E como fica o salário de 5,5 mil euros por dia de Mexia e mais uns milhões para o aparato da ditadura do PC Chinês, outros bons rapazes, se não vendem energia? Exporta-se! Não conhecem o milagre das exportações? Há muito que a EDP produz energia aqui e exporta para fora, porque aqui não consegue vender o suficiente para remunerar os accionistas ao valor médio de lucro que estes desejam. O que interessa é vender, o quê e a quem não importa.
Chegamos à azeitona, depois desta refeição pantagruélica. Mexia está indiciado porque foi a um curso em Nova Iorque…enfim, desculpem, nem vou continuar. Um curso? Um país esvaído de um recurso vital, escolas a funcionar com 12 graus na sala de aula, e o drama é uma viagem? Dirão os leitores: “ao menos apanham-no!”. Não, aqui é que o erro é, creio, gigante. Isto é a judicialização da política – mãos limpas para uma economia suja. A política é um escolha moral, antes de tudo. A EDP não pode estar à espera de um deslize legal menor para voltar a ser uma empresa de electricidade para os portugueses. O Governo tem que usar o seu poder político e re-nacionalizar a empresa sem indemnização – mesmo assim todos estes bons rapazes vão ficar a dever-nos muito dinheiro, e horas de vida decente – as quais, infelizmente, já não podem pagar. Como os 25 minutos de brincadeira que uma professora de matemática fez este ano quando estavam 9 graus na sala de aula e ela, em vez de abandonar a sala de aula e dizer que não estavam reunidas as condições para produzir, chamou os alunos todos, correram à volta da sala, aquecerem as mãos à vez no único radiador e 25 minutos depois sentaram-se. 25 minutos de Idade Média para pagar não uma viagem de um curso de uma chinela num cano roto de uma melga. Mas a vergonha da simples existência destes gestores destas empresas nestas condições ainda existirem no país depois de tudo o que aconteceu com as empresas privatizadas, a começar pela Banca, que hoje vale…1 euro.
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13 thoughts on “A azeitona de Mexia

  1. Cara Colega,
    Gostei muito do seu texto. Iniciei há tempos uma pequena autobiografia que entretanto parei onde escrevo sobre a minha infância sem electricidade no início dos anos 60 e depois a chegada da “luz” e alegria de toda a minha aldeia. Na escola primária não havia sequer um aquecedor (nem podia) e depois na minha adolescência o frio que passávamos. Mesmo depois do 25 de Abril na Faculdade o sistema de aquecimento que existia nunca funcionou naqueles 5 anos. Tem sido uma tristeza este país: Quando ia a Inglaterra e quando voltava as pessoas perguntavam-me pelo frio e eu respondia que era cá que o sentia: na Inglaterra, frio só na rua.
    Já agora a autobiografia iniciada tem por título: “A Amargura do Egocentrismo”-Meus cumprimentos.

    • …caro professor, o título do livro já o liberta bastante, tanto, que talvez não precise de vir a fazer psicoterapia, no entanto o seu ego é mesmo muito grande!

    • As pessoas têm aquilo que merecem. Basta olhar à volta, no quotidiano. Muitos mereciam pior até.

  2. Pois!
    Não é exactamente nas mãos dos governos que se encontra a possibilidade de reverter esta ditadura consentida em que vivemos em termos globais.
    Os governos estão todos reféns.
    Uns por convicção própria, outros porque esperam que no jogo do gato e do rato a que se entregam, enquanto esperam que outros – noutras paragens – se lhes juntem, lhes venha a ser favorável.
    No entanto só assim acontecerá se os cidadãos participantes no escrutínio pelo voto passarem a ter noção do que são, como pessoas singulares e colectivo e, a decidir em função dos factos e não do condicionamento de “credos”!

  3. Pingback: Ler os outros | Âncoras e Nefelibatas

  4. Enquanto votarem nos partidos não há como escolher ,pois estão todos minados da esquerda á direita ,este País só vai mudar quando entrar um Ministro sem partido e que esteja limpo por fora e por dentro ,que venha de uma família sem corrupção etc..

    • Não creio, meu caro senhor António Claro, que essa seja alguma vez solução para o problema que coloca. A Democracia é a representação do Povo no poder e, sendo assim, o Povo vota em quem se apresentar a eleições. Quebrar este princípio com “um Ministro sem partido”, surgindo numa manhã de nevoeiro, é um perfeita utupia. Limpo “por fora e por dentro”?, diz o senhor?. Lá teria o homem de ser autopsiado!!

      • A Democracia é uma ideia utópica em defesa de uma igualdade que não existe e com custos elevados que normalmente arrastam os Países ao endividamento e à ruína total… Haja vista ao que nos aconteceu cá na “terrinha”!?

  5. A EDP-EP, criada em 1976 (com a fusão de 14 empresas e posteriormente com a integração dos serviços elétricos Municipais) tinha como objetivo a eletrificação do País, de lés a lés, levando a luz elétrica aos longínquos lugares, muitos deles espalhados pelas serras. Trabalhei nesta empresa durante 46 anos e posso afirmar-vos que com sangue suor e lágrimas esse objetivo foi alcançado. A EDP privatizada e entregue a vários acionistas é uma outra coisa. Vê-se o que ela é. Mas a EDP-EP a que me referi, desapareceu da memória de muita gente e é pena!

  6. Vivemos numa “ditadura do proletariado”, depois de termos levado o País durante os últimos 40 anos à ruína,em defesa dos trabalhadores, que pouco ou nada fazem. Herdamos agora todas as PPs que alimentam só única e exclusivamente os que trabalham nelas, às custas do resto do País…Porque aquelas grandes empresas que dantes existiam e eram e foram economicamente o sustentáculo da nação, foram tomadas pelos “trabalhadores” analfabetos, que as faliram em poucos anos e as fecharam. Têm agora como reverso da medalha aquilo que estamos a herdar – “chularia”!

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