“Todos para Berlim!”

O cenário europeu era explosivo. A Europa central e balcânica estava sob as botas do expansionismo, a Europa ocidental na luta pelas colónias e mercados. A 2 de janeiro de 1916 a revolucionária Rosa Luxemburgo escreve: «Os negócios prosperam sobre ruínas. Cidades transformaram-se em montes de escombros, aldeias, em cemitérios, regiões inteiras, em desertos, populações, em montes de mendigos, igrejas, em estábulo; o direito dos povos, os tratados, as alianças, as palavras mais sagradas, as autoridades supremas, tudo é feito em farrapos, qualquer soberano pela graça de Deus trata o primo, no campo adversário, de cretino e velhaco desleal, qualquer diplomata trata o colega do outro partido de canalha espertalhão, qualquer governo, vendo no outro uma fatalidade para o próprio povo, abandona-o ao desprezo público; a fome provoca tumultos em Veneza, Lisboa, Moscovo, Singapura; há peste na Rússia, miséria e desespero por toda a parte».

Todos falavam em 1914 de uma guerra rápida: «vai acabar no Natal!». Foi a mais «popular» das guerras nacionalistas, imperiais – Victor Serge, intelectual socialista, preso então em França, no início da guerra, escreve: «Chegavam à prisão veementes MARSELHESAS cantadas por multidões que acompanhavam os mobilizados de comboio. Ouvíamos também: «Para Berlim! Para Berlim!». Este delírio, incompreensível para nós era a consumação do apogeu da catástrofe social permanente». Pesquisas recentes mostraram que os sons de entusiasmo ouvidos por Serge ampliavam-se na prisão, como um eco que se multiplica. São precisas algumas “aspas” na popularidade da guerra. Os socialistas franceses chegaram a colocar a hipótese de uma greve geral contra uma guerra europeia, em julho de 1914; na Alemanha os grevistas das fábricas eram enviados para a frente de guerra como castigo; testemunhos hoje provam que a classe trabalhadora da poderosa região do Ruhr  – ainda hoje a região mais forte e sindicalizada da classe trabalhadora industrial europeia – ficou de fora das manifestações patrióticas; do outro lado do Atlântico – nos EUA – o governo apela ao recrutamento voluntário de 1 milhão de soldados – só 70 mil se alistam.

A I Guerra Mundial teve, contudo, um recrutamento mais fácil, porque os camponeses viviam isolados em aldeias e porque a experiência de uma guerra total era desconhecida. Há um isolamento social geográfico no mundo rural, mesmo nas industrializadas Inglaterra, Alemanha e França que torna a resistência organizada muito difícil de se concretizar – aliás, eles tornar-se-ão camponeses resistentes, desertores, só depois de incorporados numa organização coletiva – a militar. O nacionalismo prospera como ideologia, escritores como HG Wells clamava o “apoio à guerra para pôr fim à guerra”, Anatole France discursou para os soldados. Mas o apoio mais importante veio do seio do movimento operário organizado na Alemanha. A guerra foi apoiada pela social-democracia alemã, austríaca, pelo Partido Trabalhista Inglês, pelos socialistas franceses, pelos grandes sindicatos, pelo anarquista Kropotkin e pelo pacifista Gandhi. A “unidade da nação”, o apelo das burguesias nacionais aos lideres das camadas populares, foi magnético. E catastrófico. 9 milhões de mortos. Contra estiveram poucos: os bolcheviques e os socialistas sérvios. E muitos heróis individuais. Jean Jaurès, líder socialista da França, fundador do jornal L’Humanité, foi assassinado por um nacionalista francês a 31 de Julho de 1914. Em 1914 a Inglaterra tinha um império 114 vezes o seu tamanho; a Bélgica 80 vezes, a Holanda 60 e a França 20…

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