Vocês têm carne?

A gestão democrática, controlada pelos debaixo, dando a cara e votando de braço no ar, distribuindo responsabilidades, direitos e deveres, pedindo contas, foi caricaturada como tribunal plenário e paulatinamente substituída pela gestão profissional, hierárquica, uma cadeira de gestores em que um gestor só responde ao gestor hierarquicamente superior mas jamais aos milhares que estão por baixo, foi impondo de cima para baixo um conjunto de regras, a maioria delas retirando autonomia, capacidade de decisão e controlando pela avaliação de desempenho e o assédio moral os que se opõem, ou não são do mesmo partido, ou do mesmo clube, sector, e serve para denúncia, delação, o prémio é um dia subir um pouco mais na escala hierárquica e arrumar pelo caminho possíveis concorrentes.
Algumas empresas – das maiores do país – abrem vários processos disciplinares por mês e “quem paga a conta dos mesmos?”, afogam os sindicatos com idas a tribunal ou pelo menos gastos em juristas avultados. Curiosamente, e contraditoriamente, são as empresas quem mais sofre com isto porque deram poder a uma série de tipos intermédios que primam por ser medíocres, especialistas em minudências, conhecedores profundos de uma infinidade de decretos que usam os seus cargos intermédios para se promover à conta da destruição do mérito e produtividades alheios. E que têm nos trabalhadores mais cobardes, uma minoria, um apoio. Do que conheço de contacto com vários sindicatos a braços com estes problemas – sem dados porém – a ampla maioria da base está em silêncio, uma minoria faz parte dos queixinhas, sempre prontos a ter pena de si próprios e ir ter com o gestor intermédio oferecer os seus préstimos e encontrar aquele lapso no vizinho do lado, e uma minoria enfrenta o absurdo.
Dizem que um governante reflectem os governados – simplismo analista. Na verdade os tipos profundos, sérios, densos, afastam-se de cargos, em Portugal por um expediente fácil – a reforma antecipada, a saída de milhares de pessoas sérias de empresas, hospitais, escolas neste país. É que são todos iguais tirando os que são todos diferentes e chegaram à conclusão sensata que se pisarem lama vai salpicar-lhes. Um dia vamos descobrir que as empresas e outros espaços produtivos – escolas, hospitais – ficarão tipo URSS pós 1928: um plano falso, uma planificação falsa, uma produção falsa, um balanço falso, um relatório de contas falso.
Lembrei-me de uma boa piada sobre as empresas no tempo de Estaline:
– Vocês não têm carne ?
– Não – responde o empregado – o que nós não temos é peixe, quem não tem carne é a loja da frente.
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