Humano Regular

Hoje tive um acidente de trabalho. Decidi regar as flores do escritório, quando estava na cozinha com um par de livros na mão, enchi uma garrafa de litro e meio e fui até ao escritório. Como tinha livros na mão não fechei a garrafa, mas pensei – juro – para mim: «isto vai dar barraca». Fui à rua, reguei as rosas, voltei para dentro com meia garrafa, e estavam vários livros no chão e papéis em que estou a trabalhar e automaticamente baixei-me para pousar os que levava na mão e a água entornou-se sobre tudo, ao som de alguns impropérios a mim própria. A próxima vez que virem «erro humano» num relatório sobre, mais um, mortal acidente de trabalho, recordem-se desta história. Humano é errar. O mais disciplinado e obsessivo dos trabalhadores falha. Aliás, só são possíveis greves de zelo – no Brasil operação-padrão – porque se em todos os locais de trabalho se fizessem sempre os procedimentos correctos, na ordem estipulada, levava-se muito mais tempo a concluir o trabalho. Como humanos que somos automatizamos acções, baixei-me para pousar livros, o meu cérebro, apesar da minha conversa comigo própria 5 minutos antes (“isto vai da barraca”) automatizou uma acção.

No meu caso isto não coloca em causa o trabalho, nem a minha vida nem a de terceiros. Está ali tudo a apanhar banhos de sol – um dos livros é mesmo a edição da Isabel Loureiro das cartas de Rosa Luxemburgo, uma rosa, debaixo da rosas ao sol. Tem capa muito dura, salvou-se. Seria um absurdo a sociedade alocar técnicos de segurança a professores, escritores, investigadores e milhares de outras profissões. Mas, o que me aconteceu passa-se também num estaleiro quando um operário entra num contentor com gases e morre – ele ia ali uns segundos e não olhou o aparelho de medir gases; é o que acontece quando se cai de um andaime – ia só buscar uma ferramenta. Ou seja, errar é humano. Todos vamos errar. Mas uns quando erram morrem. Como há risco de vida em determinadas profissões, as empresas têm que investir em técnicos de segurança para que estes anjos da guarda andem em cima do ombro dos operários a dizer «Ops, isso vai dar barraca. Não podes continuar!». A lei que temos é desequilibrada, porque coloca pequenas empresas sem riscos com técnicos (a pressão das empresas de Segurança e Saúde no trabalho actua aqui, porventura, bem como impostos e taxas encapotadas), mas diminuiu o número destes em empresas com riscos, em particular na construção civil e manufacturas. O que importa nesta curta história é o seguinte: a culpa não é do trabalhador porque ele à partida é culpado de ser humano. Imaginem como será ainda um trabalhador que além de humano faz, como é padrão, horas extraordinárias com regularidade e permanência?

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One thought on “Humano Regular

  1. Isto é bem verdade…

    Até eu que, tento sempre não cometer erros (quase a tentar cumprir o princípio budista da “atenção perfeita”), por vezes, cometo-os.

    E, uma coisa que – por experiência – sei, é que o trabalho “duro” (que exige contínuo esforço físico) “embrutece” uma pessoa – isto é, torna-a menos sensível e atenta aos pormenores.

    Duas maneiras mais de evitar acidentes de trabalho, são:

    1) Montar, sempre que possível, os instrumentos e métodos de trabalho com mecanismos de segurança (duplos, de for preciso) – e tornar obrigatórios tais mecanismos de segurança, por Lei.

    2) Impor altas indemnizações que terão de ser pagas pelas entidades empregadoras, em caso de sérias consequências para o trabalhador, para obrigá-las a investir na segurança (por serem as indemnizações obrigatórias mais dispendiosas do que estar a implementar mecanismos de segurança).

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