A minha avó, e uma quinta-feira da Espiga

Hoje é dia da espiga, o dia em que se passeava, colhia flores e não se devia trabalhar, apenas contemplar a natureza, é uma tradição portuguesa.
Das coisas que mais pena e susto me dão hoje em dia são as crianças presas em apartamentos, agarradas a jogos electrónicos. Com 3 para 4 anos fui enviada para a minha avó Olivia, aqui na fotografia. Precisamos de chegar a adultos para perceber como nos construímos. Depois de muitas horas com o Coimbra de Matos ele convenceu-me de algumas coisas, outras já estava meio convencida. A que ele me convenceu é que a ligação afectiva profunda nos primeiros anos de vida é indispensável – o tempo e o afecto do amor apaixonado de pais, avós, padrastos e madrastas, não interessa, quando as crianças nascem e nos primeiros anos de vida precisam que alguém as ame e as olhe apaixonadas, esse vínculo é fundamental, a metáfora do presépio; as que já estava convencida são a necessidade de liberdade física – sem a qual a liberdade intelectual não é possível; e o papel da experiência, cair para saber levantar-se. Tive a sorte de ter sido enviada para uma pequena aldeia perto de uma avó, com quem estava o dia todo. O modelo de dia a dia com os meus 4 anos era o seguinte: eu andava descalça, com os bichos, fazia o que queria, sem a vigilância apertada dela, sujava-me, passava largas horas com amigos imaginários, conversava com os meus dois patos, que me acompanhavam ao ribeiro, lavava cenouras no rio; dentro de casa o modelo invertia-se – a casa impecavelmente arrumada e limpa, vim de lá com um olho clínico para uma migalha, «prendada» dizia-se então, apesar de ter uma sola natural nos pés de andar descalça o dia todo na terra e no ribeiro – ainda hoje quando lá passo, vou à terra da roda de fugida e enfio os pés no rego de água que junto à areia faz uma lama quente, deliciosa.
E tudo isto com o bónus final de dormir agarrada a ela, quem teve uma avó assim sabe que depois de dormir com quem amamos, o segundo melhor sono do mundo é com a avó, a avó (eu tive duas assim) é um ser quente, paciente, que nos ama, sem ansiedade.
Sair da linha de Cascais para uma aldeia rural, do século XXI para o XIX, foi uma das sortes grandes que tive na vida. Quando regressei fui para uma creche que me sufocava, não tenho palavras para o desconforto que foi aquele lugar, que era decente e bom e bonito, e eu tinha falta de ar. Há muito pouco tempo descobri que não era a maldade das educadoras, que não existia mas que eu assumi como tal, mas a prisão em que fui encerrada que me fez detestar a creche.
Hoje o campo é um aborrecimento mortal, é um espaço suburbano, onde o que era bom no campo desapareceu e ficou o que é mau, no campo as crianças agora estão tantas horas presas nas suas confortáveis casas como estão nas cidades – obesos, presos, repetitivos, sem criatividade, sem liberdade. O mundo da minha avó morreu, quando ela morreu – o último sopro de uma sociedade rural. Ela ali está, a entrar em casa. Quando ela morreu, subitamente, eu tinha 16 anos e nem sabia que se podia morrer. Aprendi chocada que nunca devemos deixar de dizer em vida aos que amamos o quanto eles são importantes para nós. O tempo não nos permite tudo.
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