Procedimento Unânime Excessivo

As notícias da economia, digo-o sem retórica, não são boas. E pior é o unanimismo. Esse é o maior dos problemas, implica que os homens nada mais têm a inventar, é o novo pensamento único, todos discordam a partir de uma premissa com que todos concordam. Fazer da política um jogo de simpatias e afectos é infantilizar a população portuguesa. Quando temos 10 anos decidimos tudo em função dos amigos que partilham a bola, em adultos temos obrigação de distinguir as palavras bonitas das acções reais, ser menos susceptíveis – imunes nunca seremos – à manipulação emocional e à sedução. A creio mais de 90% dos portugueses se hoje lhes fosse perguntado o que é a dívida pública, o défice e o custo unitário do trabalho não saberiam dizer, muitos mesmo com o ensino superior – os estudos da literacia económica assim o indicam. Os partidos, e os media, deveriam ter este papel, que a educação não colmata. Viver na parte da economia que está bem já é estar entre os eleitos, saber de economia é infelizmente um privilégio.
O país institucional está inebriado pelo nacionalismo paroquial, e sobretudo pela ausência de oposição estruturada. A unanimidade de todos os partidos sobre o défice – “é uma boa notícia” do BE ao PSD, embora, sublinhem, por razões distintas – é um problema agravado porque não é difícil encontrar no mundo economistas e cientistas sociais que explicam, demonstram, que a subida do PIB e a queda do défice não significam, no modelo em que vivemos, boas notícias para a maioria das pessoas, a menos que estejamos todos dispostos a acreditar que a população em geral beneficia quando no fim do ano os donos das empresas anunciam distribuição de dividendos, embora o salário delas não tenha nem mais um euro, pelo contrário. Deixo alguns dados e por questões de tempo pessoal não posso quebrá-los em subvariáveis, o que tem a vantagem de poupar a mais uma dose de tristeza, em tempo de afectos:
1) A população activa passou de 5.060.000 para 4.560.000, ou seja, meio milhão saiu do mercado de trabalho e foi produzir riqueza noutro lugar do mundo – saíram pessoas que produzem bens vitais à sociedade e com eles saíram formadores altamente qualificados, que não estão aqui a ensinar os que ficam a trabalhar.
2) Mas há dados mais graves, a sempre anunciada reindustrialização do país está mais uma vez adiada, a capacidade instalada (máquinas, etc) não é usada na totalidade e sobretudo está a envelhecer, porque não há investimento em nova tecnologia e inovação.
3) De onde decorre a terceira conclusão. Se não há investimento, caiu o custo unitário do trabalho, cai a produtividade, de onde vem a riqueza que produzimos e que permite o aumento do PIB e a queda do défice? Da exaustão de quem trabalha e dos cortes nos seus salários, directos e indirectos. Mais de 600 mil ganham o salário mínimo, 3 milhões são pobres segundo dados oficiais, 500 mil trabalham mas necessitam de subsídios assistenciais porque os salários são tão baixos que não conseguem – literalmente – comer ou pagar uma renda. Menos de 20% dos portugueses ganha acima de pagar contas de subsistência, casa, filhos, alimentação, transportes. Foi a incorporação de mais trabalhadores e mais horas e mais intensidade (tarefas de 2 passaram para 1), o que está a deixar as pessoas “mortas”, sem vida própria, que fez subir o PIB e também fez cair o défice, pago com o sub emprego e o recurso cada vez maior a horas não pagas trabalhadas.
4) O PIB subiu também pelo mercado imobiliário, gerando uma venda de propriedades no mercado estrangeiro, o que desloca as populações locais para a extrema periferia – os meus alunos passaram de Benfica para o Seixal, de Alvalade para Mem Martins, pagando com o corpo – o cansaço – em transportes e dinheiro, a valorização da propriedade de quem a comprou.
5) A quebra de financiamento do défice levou à desnatização do SNS – 1/3 dos médicos em funções são internos, ou seja, estão e devem estar a aprender, mas aprender com quem? Não há especialistas suficientes no SNS para formar novos médicos que substituam os que saíram.
6) Das escolas abstenho-me de falar muito. Sou defensora da escola pública mas hoje no estado em que está a escola pública ela não serve para nada a não ser para reproduzir socialmente a origem social de quem lá entra – ninguém que entre lá sendo filho de pais sem qualificação e tempo vai a lado nenhum que não seja acabar no ponto de partida onde começou. Em toda a administração pública os serviços são cada vez piores porque se reformaram, sem reposição, administrativos e afins, colocando nos quadros superiores a acumulação de funções científicas e de secretariado.
7) A mim o nacionalismo não me assiste, adoro Portugal pelas pessoas, a nação é algo que só tem significado – e nisso tem muito – na mesa com amigos e no mercado de peixe, mas, a quem toca pergunto: o país não tem bancos, telecomunicações, não controla entradas e saídas em portos e aeroportos, isto não é historicamente um processo de semi-colonização? São os bancos espanhóis que vão decidir quantas máquinas de TAC precisamos para o Hospital de Santa Maria? Como se faz um país daqui a 5, 10, 15, 20 anos sem controlar estas empresas?
8) – Os Juros e encargos da dívida pública eram em 2014, 7572.9 milhões ; são hoje 8285.2 milhões. A dívida era em 2014, 212 mil milhões, é hoje 240 mil milhões.
Não falei de tudo o que isto vai significar a curto prazo, a decadência da quebra geral de serviços e bens de consumo a curto prazo. Nem falei do que já significa hoje na vida real das pessoas – como comem os portugueses, quanto tempo estão num transporte, como vivem metade do mês, como gerem a ansiedade de não ter como pagar contas, passeiam? quando e como fazem amor? qual é o estado dos seus filhos crianças, como vêem os netos crescer pelo skype (isso sim é não ter afectos) – embora devesse ter começado por aí, que é o mais importante. Porque a pergunta que todos temos que fazer não é se somos bons alunos na Europa, se temos um PIB robusto, se temos um défice em queda, é como se mede o bem-estar de uma sociedade.
Os portugueses, na sua larga maioria, estão bem?
Não, não estão.
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4 thoughts on “Procedimento Unânime Excessivo

  1. “O país institucional está inebriado pelo nacionalismo paroquial”. Muito bem. Paroquial. Paroquial. Paroquial. Paroquial. Não me vou esquecer.

  2. Brilhante análise como sempre. Desde ontem que me sinto revoltado com a encenação criada à volta desta “boa nova”. Esta Europa é um embuste e ainda vamos pagar caro por não termos uma forte liderança revolucionária. Os “poderes instituídos” fazem parte do esquema que está podre.
    Festejar o quê com os terríveis indicadores mencionados no texto? Estamos todos ceguinhos, ou pior, não queremos ver esta triste realidade?

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