Chamem o Mordomo

Quem acordou hoje acha que o mundo sofreu um abanão – nos EUA, no Brasil, na Venezuela. Na sua teoria das crises e revoluções Marx salientava o seguinte – a queda tendencial da taxa de lucro mais cedo ou mais tarde abre brechas irreparáveis dentro das classes dirigentes, a sua disputa pela riqueza produzida (concorrência) adensa-se, há falências de um lado, concentração de riqueza do outro. Essa luta pela riqueza faz transferências da periferia para o centro, de sectores para sectores e dentro dos próprios países elimina concorrentes, até que há um momento em que o Estado, «gestor comum» destes negócios, não consegue mais suportar sem grande instabilidade o embate entre os de cima. O pai Estado não tem força para os irmãos em combate, a guerra entre eles vai destruindo a casa toda – preferem queimar o quarto de cada um a deixar o outro vencer. Marx considerava – como uma vez em carta contou a sua mulher – que como esse seria o momento mais frágil do Estado abria possibilidades reais aos trabalhadores para derrubarem o muro que os separava do poder – a revolução social, num resumo simples e simplista, peço que me perdoem, mas aqui em formato de facebook é o que é possível. E chego aqui para deixar esta nota.
Não sei se estamos longe ou perto de mais uma onda de revoluções sociais, mas hoje queria lembrar outra questão – o caos que vemos agora não é nem de perto nem de longe o que está para vir. A luta fraccional pelo poder nos EUA, a sua relocalização face à Rússia e à China, com ataques a Trump vindos do próprio poder republicano; um Presidente corrupto no Brasil denunciado por sectores do próprio Estado; Bruxelas – leia-se a Alemanha – denuncia a compra da PT pela Altice, francesa, numa altura em que a disputa real pela riqueza na Europa coloca em embate a GB, a França e a Alemanha, pese embora as doces fotografias para a imprensa, são sintomas desta dramática concorrência à escala mundial entre Estados, dispostos a defender as suas empresas mas sem capacidade para estancar os conflitos que nascem deste modo de vida em que um para sobreviver precisa de matar o outro. O que quero salientar, enfim, é que este estado de coisas está a dar-se ainda no pico do ciclo de acumulação, ou seja, ainda a economia mundial está, embora timidamente, a crescer. Imaginem o que vai acontecer quando a próxima crise se der e uma desvalorização geral dos títulos fizer desaparecer uma parte da riqueza prevista em segundos, que será como sempre anunciada por uma queda bolsista? O que os irmãos vão fazer à mesa, no dia da reunião de família?
Há quem não confie que os trabalhadores – a imensa massa de gente no mundo que vive do trabalho, hoje mais de 90% da população – serão capazes de assumir um dia democraticamente o poder, criando um outro modo de sustentabilidade da vida humana na terra, fraterna, livre, cooperante, com direitos políticos e sociais invioláveis. Eu, porém, confio. Confio que o mordomo e as empregadas vão fazer como sempre nos filmes – no dia do jantar, quando os irmãos vão caindo em cima da mesa, envenenados, de ataque cardíaco, com uma seta pelas costas, eles virão de mansinho tirar as crianças e os idosos, e salvar quem pode e quer ser salvo.

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