Uma Péssima Ideia

Quando se privatizam os serviços públicos o Rendimento Básico Incondicional é um cheque-ensino, cheque-saúde. Em vez de receberem serviços, os cidadãos receberão 500 euros, com os quais comprarão serviços que, entretanto, serão também capitais portadores de juros porque serão depositados na conta, antes de serem gastos. O RBI é um logro. Um logro que não mexe na paz social porque quem paga a factura são os contribuintes no activo e não os empresários. Não mereceria uma discussão pausada não fosse a sua capacidade de entrar na agenda política, ao contrário do pleno emprego que mereceria um debate internacional de fôlego e é um tema para Dom Quixotes. O pleno emprego não mobiliza sectores importantes da intelectualidade porque geraria uma guerra social – não há pleno emprego com a concentração de riqueza que o mundo vive sem mexer dramaticamente nos lucros. E, como sabemos, quando se mexe nos lucros o verniz de paz dos detentores de acções e títulos vai por água abaixo, começam a ver fantasmas reais e imaginários em todo o lado, e de canetas de jornais a tanques de guerra toda a violência passa a ser legítima para conservar o ânimo das bolsas internacionais. Saúdo daqui as estruturas sindicais que – infelizmente – não fazendo nada de concreto pelo pleno emprego pelo menos têm-se oposto ao RBI. Uma ideia não passa a ser boa porque tem um embrulho bonito. Acabar com o desemprego é o grande desafio da ordem social hoje, fazê-lo com uma privatização encapotada dos serviços públicos, ainda universais, é lançar gasolina na fogueira porque quem trabalha vai trabalhar cada vez mais e odiar ainda mais quem não trabalha, assim progride a extrema-direita e a Europa ruma à decomposição social.

Reduzimos o horário de trabalho para metade no século XIX, como é possível não o reduzirmos no século XX e XXI?

Quem teve a bela ideia de que as minhas 12 a 14 horas de trabalho diário – que se estendem pelo fim de semana – devem servir para pagar quem não trabalha, em vez de serem dividas por 4 pessoas, assim sustentarmos a Segurança Social, ninguém ficar em estado vegetativo-catatónico e todos termos o direito inalienável a passear, escrever poesia, fazer amor e beber um orgânico branco fresco ao pôr do sol? Quem foi?

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One thought on “Uma Péssima Ideia

  1. O ponto é mesmo esse, qual é a forma mais eficaz para mexer drasticamente nos lucros, o progresso da sociedade tem sido pautado/medido pela entrega de dividendos, este modelo tem de ser seriamente posto em causa. O problema do capitalismo não é não permitir o progresso técnico e tecnológico é sim o numero de vitimas que faz na persecução desse objectivo. Não chega o pleno emprego, não chega um salário que permita um vida saudável, não chega menos horas de trabalho é essencial o controlo dos meios de produção, se este não for o verdadeiro objectivo tudo o resto será uma vitória a muito muito curto prazo.

    “…quem trabalha vai trabalhar cada vez mais e odiar ainda mais quem não trabalha…”

    Porque será que os que trabalham odeiam tanto os que não trabalham? Gostariam de estar na posição destes? Será que acham que estes são um peso e lhes está a ser roubada qualidade de vida por isso?

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