Pobrezinhos e lindos

A elite dirigente do país é sofrível. Assunção Cristas informou que veste calças de ganga e botas para ir aos bairros sociais. E para caçar em Rio Maior? Há mais de uma década dei aulas à noite de alfabetização num bairro (anti) social. Tirando casos perdidos, a maioria diga-se, cujas vidas estão destruídas até que uma explosão social estilo 25 de Abril lhes devolva a força, trouxe dessa experiência uma colecção de gente que…é rara a semana que não preenchem a minha memória. Não porque acho que pobres são mais cooperantes, solidários – tudo isso é mito pós-moderno. Mas porque a Dona D. empregada doméstica, a H. muçulmana, doméstica também, desceram ao inferno e mantiveram-se intactas. Uma das mais belas memórias da minha vida: o Sr. M. 19 anos, de Cabo-verde, não sabia falar português, nem escrever, sorria porque eu o tratava por «Senhor». Tinha medo da polícia e dos traficantes de droga, medo visível apenas quando eu tocava no assunto e ele desviava o olhar dizendo que preferia não passar por eles, apesar de ter que o fazer todos os dias. Levantava-se às 5 da manhã quando a camioneta o vinha buscar para ser servente de pedreiro. Chegava à noite, ia a correr tomar banho e sentava-se na cadeira, à minha frente, a cabeça segura pela mão para não tombar, os olhos vermelhos a lutar contra o sono, a exaustão, tomava nota de tudo. Um dia vi as pernas dele marcadas por tiros, ou queimaduras, não sei. Do tempo de criança, disse-me, para me forçar a desviar o olhar – tinha vergonha. Nunca deixei de usar lenços de seda para ir ensinar-lhe português. Assunção Cristas não percebe que todos podemos ir a um bairro social, mas há quem lá vá para acarinhar e perdurar a guetização, infantilizando o povo com uma política de afectos, e quem queira simplesmente acabar com os bairros, que de social pouco têm, são aliás o lugar mais horroroso que conheci na vida, onde a lei bíblica de olho por olho funciona na maior parte do tempo – é selecção natural dos mais fortes entre os mais fracos, uma barbárie. Aprendi há muitos anos, com a vida que me colocou perto de classes sociais distintas, que não há ninguém que goste tanto de pobres como os ricos. Foi ainda jovem, nas casas de algumas das famílias mais ricas deste país, literalmente no Restelo e em Cascais, numa quinta vinícola e num latifúndio no Alentejo que ouvi as palavras mais bondosas sobre a pobreza. Agora, pensando bem, talvez tenha sido no meio dessa hipocrisia que decidi que o meu lado da vida seria outro. Longe de quem leva botas para um bairro social, perto de quem quer de lá sair.

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