Quem trabalha nem consegue viver

Quase todos os dias as pessoas abordam-me na rua. Cada uma delas é uma história de um país que aparece pouco, embora nas estatísticas ele seja maioritário. 80% dos portugueses é trabalhador. 1/3 dos que trabalham não recebem, mesmo não estando sobre-endividados, para pagar as contas. O dia de hoje é para recordá-las. A Ana, trabalha numa grande empresa, mãe de duas filhas, só o pai de uma dá uma pensão, de 150 euros, trabalha por turnos, sem horas de facto, ganha 670 euros líquidos, paga 500 de casa. Recebeu ordem de despejo, foi à Santa Casa que lhe aconselhou alugar um quarto e lhe deu uma latas de atum. O João é taxista, vai a casa almoçar 2 horas e dormitar no meio das 14 horas que passa no táxi. Quanto ganha? “O suficiente para pagar as contas”. O Pedro está num call centre subcontratado de uma grande empresa – 570 euros, 8 horas por dia, “o turno começa às 6 da manhã, queríamos ter filhos, uma casa…mas não dá”. Entro no elevador, a senhora da limpeza, desdentada, entra às 4 e 30 da manhã, ganha «3 euros e 26 à hora» – repete para eu não ter dúvidas novamente o valor do salário – «na verdade serve-me para pagar à Caixa, porque para casa pouco levo».
Todos os exemplos são desta semana, não vos contei os da semana passada e da anterior, são todos reais. Mudei apenas os nomes e omiti as empresas.Não tenho responsabilidades políticas e mesmo assim é muito difícil um dia em que não seja abordada por alguém que me conta como o lugar de trabalho – qualificado ou manual – se tornou num espaço ultrajante, os salários são risíveis, o assédio moral generalizado, a irracionalidade da gestão a norma, a vigilância ofegante, não há pausas, todos chegam a casa mortos. Às Câmaras chegam todos os dias pedidos de ajuda para ter onde dormir, o que comer. Aos tribunais. Às Juntas de Freguesia. Às Igrejas. Vivemos na instabilidade social, na ansiedade, na desorganização – o país real é um caos. Todos os que referi aqui trabalham 8 horas por dia. E pagam impostos.
Metade do país é oficialmente pobre. 30% recebem assistência.
O 1 de Maio não deveria ser só um desfile de memória, mas uma corrida contra o tempo. A história pode ser estupidamente lenta, mas a vida corre, mesmo quando não se vive, porque – com a mesma tristeza que olhamos alguém no século XXI desdentado, que destrói a auto estima – devemos ter frieza para deixar de elogiar a pobreza, parar de elogiar este país de baixos salários, exportações e alta competição que coloca os nossos vizinhos, colegas, filhos e pais a viver sem dignidade. Onde quem trabalha tem como opção o assistencialismo, umas latas de atum e um quartinho. A vida suspensa, portanto. Há alternativas e todas custam. A ruptura com este modelo não vai ser indolor – mas é inevitável se não queremos continuar a sair à rua com vergonha, medo, melancolia. Não podemos aceitar um país onde quem trabalha nem consegue viver.

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4 thoughts on “Quem trabalha nem consegue viver

  1. Comecei ontem a “preparar-me” para enfrentar o dia de hoje, o 1º de Maio, que deveria ser festejado com alegria: por aquilo que historicamente representa, e por se poder manifestar a desejada justiça social por parte de quem trabalha.
    Ilusão!
    Neste 1º de Maio estou solidário com todos os meus concidadãos trabalhadores que vivem mais um dia de miséria e de exploração, e mais um dia de menos esperança num futuro melhor.

  2. E, de quem é a culpa de tudo isto, se não desses mesmos trabalhadores?

    Ou, por outras palavras… Quantas dessas pessoas, que a abordam, é que fizeram alguma coisa (i.e. lutaram) para impedir as coisas de chegar a este estado?

    É aqui é que está o problema. Pois, num país de panhonhas e cobardes, não se pode esperar outra coisa que não seja pobreza e retrocesso social.

    (Estivesse eu no seu lugar, era isso que diria na cara de tais pessoas – embora, com diferentes modos e também escolha de palavras.)

    Numa cultura de pessoas de tal modo domesticadas, que até quem tem como profissão andar a domesticá-las se queixa do quão domesticadas estão…

    “um povo tão dócil e tão bem amestrado que até merecia estar no Jardim Zoológico”
    — D. Januário Ferreira, Bispo das Forças Armadas e de Segurança

    …como costumo dizer, continuo sem compreender onde é que vão as pessoas inteligentes deste país buscar o seu optimismo(?).

  3. Ou, sendo eu mais honesto…

    A minha descrença neste povo, em particular, já é de tal modo grande, que já nem me dou ao trabalho de tentar consciencializar (politicamente) ninguém, pessoalmente – como fazia nos meus tempos de activista.

    A minha reacção agora (perante desconhecidos), de cada vez que oiço alguém queixar-se do quão más as coisas estão, é simplesmente ignorá-las… (Ao mesmo tempo que penso que, se acham que as coisas estão más agora, é porque nem ideia fazem do que ainda está para vir e do quão grande é a m**da que fizeram da sociedade que vão deixar aos vossos filhos – pois, eu é que não me atrevo a ter nenhuns.)

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