Os sentimentos na revolução  – notas sobre o livro Roteiro da Revolução.

Por Carlos Matos Gomes, escritor, coronel, membro do MFA

Um roteiro está habitualmente associado a locais e a acontecimentos. Este Roteiro da Revolução, de José Mateus, Raquel Varela e Susana Gaudêncio cumpre essa função, mas é antes de tudo um roteiro de sentimentos. Revela o que sentiram as pessoas perante o que desconheciam, o que sentiram os que tinham familiares presos, ou na guerra em África, ou exilados pela Europa, ou os que, nos campos e nas fábricas estavam sujeitos à arbitrariedade de patrões e capatazes.

Os que julgam conhecer o essencial dos factos, são aqui confrontados com o que desconhecem dos sentimentos dos homens e mulheres que se viram envolvidos neles. O roteiro é sobre o desconhecido que habita dentro de cada um que participou nos acontecimentos decisivos.

As operações militares são apresentadas pelos olhos dos que, aos poucos, se vão apercebendo do que está a ocorrer. O roteiro tanto segue os que se opunham à ditadura como os homens e mulheres comuns. Os que temem que o golpe seja de um Kaúlza feito Pinochet e os que esperam que as coisas mudem para melhor, com paz e liberdade.

Este fascinante Roteiro é uma viagem por aventuras de personagens envolvidos em acontecimentos que desejam e temem. Podia ser o guião de um filme de suspense, ou de aventuras e até de um drama sobre o absurdo dos poderes totalitários, como o que decorre das desventuras de Fernando Pereira, o conhecido artista, imitador e apresentador de TV que, aos 15 anos, ferido com os tiros disparados das janelas da PIDE na rua António Maria Cardoso vive o papel de Joseph K. no romance O Processo, de Kafka. Uma história já fora da realidade, com a jovem personagem nas mãos dos burocratas da polícia, imperturbáveis, a cumprirem as suas rotinas como se nada tivesse acontecido.

Os textos desmontam a teoria de que o regime caiu de podre e tudo foi fácil. Basta ler o que ocorreu no cerco à PIDE, ou à porta de Caxias, com o relato da ansiedade dos familiares ao ouvirem o som de tiros disparados o interior do forte, ou a descrição do ambiente vivido no interior do Quartel do Carmo, para nos apercebermos dos momentos em que tudo esteve por um fio, em que, felizmente, não se cumpriu a Lei de Murphy e tudo o que podia correr mal, desta vez não correu.

Poderíamos pensar que o Roteiro terminaria com o que aconteceu em Angola, Guiné e Moçambique, pois, tendo sido contra a guerra em África que o 25 de Abril começou, seria lógico que ali terminasse a viagem. Mas não, os autores foram mais longe e mais fundo. Dizem-nos que, passada a estupefacção, os senhores do mudo, apanhados de surpresa pelos capitães e pelo povo português, muito rapidamente se uniram para colocar uma coleira na revolução e a fazerem vergar aos seus interesses. Fazem-no num pequeno e subtil texto: “Dois jantares alemães nas vésperas da liberdade”.

No Roteiro não está tudo, mas está o essencial que nos permite perceber a importância do 25 de Abril na libertação dos portugueses, dos africanos das colónias, mas também a importância para o mundo, o contributo que deu para o fim das ditaduras na Grécia e em Espanha, para o fim do apartheid e até para dificultar a implantação da nova ordem neoliberal que hoje nos domina e nos prende atrás de grades invisíveis, mas não menos violentas.

Carlos Matos Gomes

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