Abril, o legado

Reflecti hoje, e nos últimos dias, sobre qual o maior legado do 25 de Abril, quando os salários reais caíram a valores anteriores a 1973. Creio que ponderando tudo – liberdades cívicas, pleno emprego, Estado Social, cultura, educação ampliada, saúde universal – o mais importante que a revolução nos deixou foi um poderoso antídoto contra o cinismo. Descobrimos com a revolução que as pessoas mudam quando mudam o mudam, mudam com ele. Não mudam fazendo Yoga e comprando livros de auto ajuda, não mudam desistindo isolando-se, não mudam quando deixam de ter ilusões na humanidade porque estão cansadas de derrotas, não mudam quando desistem. Mudam quando mudam o mundo à sua volta. Ou seja, as pessoas transformam-se perante movimentos sociais amplos, colectivos, o espectro de autodeterminação – liberdade a sério – amplia-se, e o melhor de cada um brota. Hoje terminei o dia em conversa com dois operários da construção civil que cercaram a Assembleia da República em 1975 – tudo começou, e a contrario do que tantos pensam (levados por uma memória sem ciência, que corre nos media), contra o PCP e seus apoiantes, com algo simples, tão simples que não podem imaginar – o direito a ter um helicóptero para ir buscar feridos à refinaria de Sines em construção, onde várias mortes tinham acontecido. Saíram de Lisboa dia 13 de Novembro, com o helicóptero. O resto conto um dia destes. O importante hoje a recordar é isto – cada uma destas pessoas tornou-se mais humano, mais justo, mais responsável, mais vivo na revolução. E isso só foi possível porque mudou as circunstâncias que o faziam mais desumano, menos justo, irresponsável, sem vida.
Em nota pessoal agradeço muito aos que – milhões de portugueses naquele biénio – fizeram a história – sobre a qual escrevemos. Porque isso me deu um país melhor, uma profissão que amo, mas sobretudo, acima de tudo, aprendi com eles a ser menos cínica e a ter esperança na transformação das pessoas. Nos tempos que correm isso é…quase tudo.
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One thought on “Abril, o legado

  1. Os aspectos menos tangíveis de uma determinada acção ou acontecimento são muitas vezes difíceis de discernir, a mudança é acima de tudo uma alteração de contexto, precedida de momentos de clarividência e lucidez. A ousadia é a qualidade que nos mantém vivos e capazes. Todos os dias são um bom ponto de partida para fazer diferente, é essencial lutarmos com os outros por nós próprios. A nossa dignidade é medida pela seriedade como olhamos para os demais e não por uma qualquer noção pré-estabelecida.
    São pessoas como a Raquel que nos tornam individuais.

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