Retratos

O retrato, originalmente na pintura, deveria retratar o “corpo e a alma”. A fotografia nasceu na 1ª metade do século XIX mas a identidade-civil surge, conta-se, pela primeira vez em França em 1888. A ideia de um cartão de identidade, ou de um passaporte, só vai ser massificada, e não a todos os países, depois da fuga massiva de trabalhadores de origem cigana, anarco-sindicalistas da zona da Roménia aquando do fecho das minas no final do 19. A isso vai juntar-se a conscrição para a guerra, perseguição aos socialistas e depois aos judeus – esta é a história pregressa da Interpol (presidida por 4 generais nazis das SS entre 38 e 45).
Em 1943 surgem as primeiras leis trabalhistas no Brasil, com elas passa a ser obrigatória uma carteira de trabalho. Até aí o retrato era um privilégio de classes mais abastadas. Assis Horta, de Minas Gerais, hoje ainda vivo, com 99 anos, propõe-se fotografar as pessoas da classe trabalhadora que não tinham dinheiro e dar-lhe o direito à imagem. Empresta-lhes roupa bonita, e ensina-lhes poses dignas – os pobres andam mais vezes de cabeça baixa e ombros caídos, se olharem à volta repararão que a marca de classe é tão dura que está no olhar, nos ombros, na postura, ainda hoje. A exposição belíssima, e dura, está no BNDS no centro do rio. O “duro” é o contraste entre os olhos anémicos, o raquitismo, a pobreza, sub nutrição evidente, e a dignidade que AH lhes quis dar, o que faz com que muitas vezes as roupas estejam largas demais para os fotografados.

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