Trump em Torremolinos

Vi ontem, pela primeira vez, uma entrevista dos jovens de Torremolinos, explicando “que só tinham partido o elevador, umas paredes pintadas e uns candeeiros destruídos”. Em directo na TV. Mais, vieram dizer que pagaram. Talvez com isto consigamos de uma penada só debater o desemprego estrutural e o assistencialismo familiar e Estatal, o lumpen-proletariado, Trump, a Cornucópia e a juventude, essa “condição humana”.

1 – Que o fizessem com um pedido de desculpas aos pais, fugir das câmaras, tinha algo de aceitável e de facto “quem nunca?!”. Temos o direito de errar e pedir desculpas, quando somos mais jovens temos o direito de errar mais, porque sabemos menos. Não é o caso. Eles vieram explicar ao país inteiro que isto não é uma democracia, é uma infantocracia – eles partem, eles acham bem, e o mundo inteiro não os compreende, nós todos estamos em dívida para com eles. É um grau de individualismo e parasitagem social do trabalho alheio que nos convoca a pensar se há ou não saída histórica para o país enquanto tal – estou a ser sincera, a pergunta que me interessa aqui é o lugar do país no sistema internacional de Estados – vamos ser uma semi-colónia com largas margens da população marginalizada, um país para exportação de capitais bancários dos países centrais, que para os pagar em juros tem uns governos que decompõe a sociedade aqui em salários miseráveis, desespero e lumpenização, e sugam os melhores quadros? Ou seja, entrámos em decadência económica, decomposição moral e os sectores desagregados da sociedade vão ser mais fortes do que os sectores organizados e civilizados do mundo dos que vivem do trabalho? Numa palavra: estes tipos, que partem os bens dos outros e mandam a contam para os pais pagarem e – isto é que é intolerável -, vêm à TV explicar que fizeram tudo bem, vão determinar os destinos do país? Se sim, façamos as malas. Vamos ser uma Florida da Europa, uma estância para reformados europeus, com muito sol e uns malandros que ora estão deprimidos com ataques de pânico quando descobrem aos 35 que não têm nada, trabalho, saber, futuro, dignidade, zero, nicles, nestum; ora estão do alto da sua ignorância a explicar à TV que são felizes assim.

2- Eles, e muitos com eles, vieram sublinhar que pagaram a conta com uma caução. Vejam, se eu emprestar a minha casa a um amigo e ele pintar as paredes e me deixar um cheque de 500 euros, que dá e sobra, eu vou cortar relações com ele. Porque a nossa amizade não cabe num cheque. A confiança não tem preço. Eu sei, e nisso só posso culpar o atrasado movimento associativo e sindical português, que para estes jovens tudo tem preço. Tudo se pode pagar. Ora, nem tudo o que tem valor moral tem preço. Destruir um elevador é destruir trabalho incorporado de dezenas de pessoas que hoje e ontem trabalharam, da física às minas que vão dar o aço, dos estivadores que o descarregaram aos poços de petróleo para o transportar. Os bens desgastam-se e devem ser repostos, mantidos, substituídos, não devem nunca ser destruídos porque isso é deitar trabalho alheio fora. Não é só o trabalho dos pais deles mas o de toda a sociedade. Roubar ou destruir é desistir. Não é resistir.

3 – Nunca vi a mesma coragem nesta geração a ocupar a GALP, a EDP, CTT, TAP, PT, ANA, CGD para que voltem a ser propriedade de todos nós, por exemplo, já que foram construídas, por inteiro – rede, infraestruturas, trabalho -, pelo dinheiro e trabalho dos nossos pais e avôs. Ou encostar à parede à porta da empresa, como tem acontecido em França, o director que pratica assédio moral e perseguição – o dia a dia das nossas empresas e Estado – ou seja, agressões físicas e mentais intoleráveis, próprias de um sistema de ditadura laboral baseado na ameaça e no terror. Isso, meus amigos, é que era coragem.

4 – A Comissão Europeia veio explicar porquê. Porque não têm coragem. E por isso chamou-lhes “desencorajados”. Cito. É exactamente este o nome. Os desencorajados. Em duas linhas conto-vos: os relatórios recentes da Comissão sobre o desemprego estrutural assumem que os baixos salários, falta de formação e apoios estatais assistenciais – esquecem-se de referir os familiares – fazem com que uma massa gigante da população não retorne ao mercado de trabalho. Mais vale vegetar em casa à espera da morte do que esperar a morte num trabalho onde se ganha para comer e transportes, nada mais. Era 38% da UE, antes de 2008; são hoje 49,7%. Isto é, metade dos desempregados não vai trabalhar. Nem de vez em quando. Mesmo ocultando os que vão e não declaram – uma minoria calculada – a CE está em pânico. No último relatório, de 2016, 2 º semestre, diz que assim, ai que desgraça!, vai subir o salário, o famoso “custo unitário do trabalho” (nome que escrevo com custo porque o trabalho não é um custo, é um valor; o lucro sim é um custo pesadíssimo para o conjunto da sociedade). Assume a Comissão, esse Governo não eleito de todos nós, a perversidade de que precisa de desempregados para concorrer no mercado de trabalho, mas lamenta-se que os desempregados estão desempregados, mas não concorrem no mercado de trabalho. Não saem de casa ou da asa dos pais, ou da assistência.

5 – O problema disto é a despolitização da pobreza. É que alguém que vai trabalhar 8 horas num cal-centre por 500 euros vai ser confrontado com sentimentos elevados que podem ser duros mas não lhes retiram a dignidade, pelo contrário, devolvem: revolta, noção de justiça, e se tudo correr bem, com a necessidade de organização e com a resistência colectiva. É um trabalho desgastante, brutal. Mas onde há a possibilidade, não a certeza, de haver resistência colectiva.

Quem está em casa vai no mínimo, sozinho, chorar à mãe que pague a conta, apelando ao mais irracional narcisismo paterno, com sorridos cândidos. A pouco e pouco vai ficar como está: indigno, sem amor próprio, deprimido. Desiste, certamente. Não há qualquer possibilidade de dignidade na dependência, no medo, na fragilidade.

6- Gostava de ter visto neste episódio mais do mesmo. Um “sempre fomos assim, jovens”. Lamento, mas não vi. O que vi foi a acelerada decomposição moral da sociedade portuguesa, em que se legítima que o trabalho não deve ser dividido por todos, mas há uns que podem, sem vergonha, viver do trabalho alheio, com 17 ou 40 anos. Não lutam, sequer por si próprios. E assim o mundo fica ainda mais assustador. Trump de um lado lança bombas, a ONU enviada enxadas para enterrar corpos, como hoje mostrava um cartoon. Sem alternativa, parece.

7- Finalmente, a Cornucópia fechou porque não há público sem meios de produção. A separação entre consumidor e produtor, esta ideia mirabolante que tudo se paga, é irreal. Vai ao teatro quem sabe fazer teatro, vai à música quem aprendeu música, etc. Os públicos passivos, não educados para aprender e ao mesmo tempo fazer arte, saber e fazer juntos, vão-se esgotando até que os espaços fecham portas. Os jovens não escolheram ir para Torremolinos beber das 11 da manhã às 5 da manhã. Não sabem fazer mais nada, portanto não têm escolha, não são livres, se lhes derem um instrumento de música, um bom concerto, um teatro, uma simples roda para conversarem, muitos não sabem o que fazer. Porque, com isto termino, nada é natural. Nós, enquanto humanos, somos o contrário do natural – a grande aventura da espécie humana é nos afastarmos, pelo trabalho que domina a natureza, pela cultura (cuja raiz histórica é o cultivo da terra, daí o mesmo radical, culto) é nos afastarmos do estado animal. É passar de dominados pelas condições externas, de sujeitos passivos a activos, fazedores de história, dominar saberes, saber fazer.

Ou quem ainda trabalha, está organizado, tem força anímica, tem coragem e agarra nisto ou vamos sucumbir. Cabe aos encorajados um papel determinante na sociedade, que arraste para cima os desencorajados. Ou todos, com mais ou menos dignidade individual, vamos sucumbir como no velho império romano, guiados por um pirómano em cima de uma bomba, a que chama mãe.

Advertisements

6 thoughts on “Trump em Torremolinos

  1. Elevação de valores foi o que acabei de ler. Infelizmente valores que se vão perdendo na nossa sociedade. É pena que tal assim seja e vou acabando o meu tempo de vida vendo as “flores murcharem” muitas vezes porque os pais também não dignificam o seu papel.
    Felizmente ainda há excepções.

  2. Não percebo o que é que o Trump tem a ver com os adolescentes javardolas “tugueses” que todos os anos fazem “merda” no sul de Espanha nas férias da Páscoa.
    A Raquel, que é historiadora de esquerda e ainda muito nova, não tem termos de comparação para compreender as diferenças entre a “liberdade” e os “direitos” que foram metidos na cabeça dos pais destes jovens e a realidade do antigamente, alegadamente “fascista”, em que havia quem mandava, havia quem obedecia, ninguém sabia o que eram “direitos” mas toda a gente sabia o que eram deveres.
    Eu vivi esses tempos até aos 18 anos e fiz todo Liceu num colégio jesuíta só para rapazes, em que as regras eram compreendidas facilmente sem ser preciso qualquer regulamento. Com estaladas, puxões de orelhas e reguadas. Havia uma enfermaria aberta durante todo o dia de aulas.
    Como fui professor do Secundário (que nojo!) durante trinta e tal anos até rebentar com uma depressão e ficar parcialmente incapacitado para o resto da vida, tenho os termos de comparação que lhe faltam a si.
    Em educação (com minúscula), passou-se do “oitenta” de 1968 (de Salazar) para o “setenta” de 1973 (de Marcello Caetano e Veiga Simão), rapidamente para o “quinze” de 1975 (do PREC) e vertiginosamente para o “oito” da actualidade (pós-PREC geringonçante). Do 80 para o 8 em 49 anos.
    Culpados disto tudo, obviamente não há. São os gloriosos “caminhos da História”, rumo aos “amanhãs que cantam”.

  3. O trabalho por si só não dá dignidade a ninguém, é até abusiva esta associação, estabelece uma moral que fragiliza todos os que não tem a possibilidade de ter acesso a este. Estigmatizar os mais fracos é para mim um acto de cobardia. O termo “desencorajados” parece-me até bastante adequado porque remete a condição desse alguém para algo que o ultrapassa. É inaceitável que alguns intelectuais de hoje ainda defendam “o direito a ser explorado”, não existe independência para quem recebe 500 euros, isso é certo. O sofrimento não deve ser visto como redentor, as escolhas reais são as que são feitas em liberdade e não o contrário. Reconheço o sentido das suas intervenções, não quero que entenda as minhas palavras como desrespeitosas.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s