A judicialização da política

A judicialização da política. Vozes indignadas ontem contra a justiça portuguesa que arquivou o processo de Oliveira e Costa e Dias Loureiro ouviram-se. Junto-me a elas, mas noutro café, se me permitem. Na Islândia coube ao poder político tomar as primeiras medidas contra este tipo de cavalheiros, suspensão unilateral do pagamento da dívida pública (cuja elevação permitiria salvar os accionistas), confisco de bens, seguido de processo jurídico. Mais de dez estão presos, mas o Governo – sob um Parlamento sitiado pelos islandeses – não ficou à espera que os tribunais resolvessem o que ele não tinha coragem para resolver. Hoje está no Governo em Portugal o mesmo partido que estava quando o primeiro de uma sucessão contínua de bancos – BPN – foi salvo. Os portugueses dos sectores médios com forte presença na opinião publicada acham os magistrados do Ministério Público uma associação mafiosa de corruptos sujeitos ao poder político, mas consideram que o PS é um partido confiável para Governar e continuar a salvar accionistas de Bancos falidos – BANIF, CGD, NOVO Banco. Na verdade, para estes sectores, é intolerável arquivar um processo por falta de provas mas doar o Novo Banco com o Estado Social como dote…enfim…para isso não “havia alternativa”, foi o “mal menor”.
A corrupção tornou-se endémica. Ao contrário de muitos na esquerda acho que o tema ganhou contornos de classe – se antigamente quer nas classes dominantes quer nas trabalhadoras havia gente contra a corrupção hoje isso é improvável. O meu argumento é este – nenhuma grande empresa sobrevive sem ser à sombra do Estado, o bolo a repartir pelo Estado entre os partidos é menor, a corrupção aumenta bem como as denúncias. É hoje impossível ao modo de acumulação capitalista viver sem quantidades massivas de dinheiros públicos e isso gera corrupção em níveis qualitativamente superiores. Quando bater à porta da Alemanha a próxima crise e uma grande empresa de automóveis denunciar uma grande empresa de tecnologias de saúde e vive versa, a CDU o SPD e vice versa acho que vamos descobrir que Portugal, o Brasil ou o Botsuana são uns meninos de coro perto do valor que se movimenta nos países centrais em luvas e favores.
A rigor o poder político empurrou para as costas da justiça o trabalho sujo. Os magistrados despolitizam o seu papel alegando questões técnicas, os políticos dizem que a justiça é independente e cabe a ela ficar no pelourinho da indignação geral. A população assiste com náuseas e impotência.
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