Eu não estava lá

Atentado em São Petersburgo. Ligam as TVs por skype a um português a residir em São Petersburgo. E ele diz-nos que está tudo calmo, e nada mais de substancial. Quem leu Tintin no País dos Sovietes – o mais reaccionário de todos do belga Hergé – consegue ter uma ideia mais densa do que aconteceu do que com a entrevista em directo com o português no local, ali mesmo, em directo. Algures passámos a acreditar que quem olha vê. Tenho a certeza que um intelectual especialista em geografia humana, mais isolado do que o escritor ermita Salinger depois de escrever Uma Agulha no Palheiro, nos confins de uma aldeia norte-americana, sabe mais sobre a Rússia do que o nosso conterrâneo que nos fala, com boa vontade, em directo, de São Petersburgo. Estar num lugar não nos confere título de especialistas. Sem estudo sério recolhemos impressões dos lugares. Mais nada. Valem como interessantes crónicas de modo de vida, pistas para turismo, não como análises para um atentado terrorista.
 
Escrevo mais sobre a Europa ou e Portugal não porque estou em Amesterdão ou Lisboa, mas porque estudo estas realidades, não porque seja eurocêntrica – às vezes é fácil confundir ambos. E conheço como poucos Setúbal em 1975, o largo do Carmo na noite de 25 de Abril, ou as greves de Luanda em 75, onde nunca fui – nem era nascida. Quando me dizem que estaria enganada aqui ou ali na minha análise sobre a revolução dos cravos porque «eles estavam lá e viram tudo» sorrio, com condescendência. Não só porque não confio na memória de cada um, mas sobretudo porque confio na absoluta falta de consciência da maioria das pessoas, que nem conhece ao final de 20 anos com quem está casado, se me permitem a piada séria. Porque não sabemos, não estudamos, não temos tempo, não vivemos em concentração permanente – a maioria de nós passa pelos momentos sem ter deles uma noção analítica ou consciente. Se queremos informação precisamos de pessoas que conheçam a formação social russa, geografia humana, história político-institucional, religiões e geo-política, pode ser chinês, brasileiro, e estar na Patagónia e ser um denso conhecedor da Rússia. Estar num lugar não quer dizer saber onde se está. Estes directos do lugar que agarram o primeiro português que está à mão são na verdade um espelho das insuficiências do jornalismo actual. Chegar primeiro não quer dizer chegar à verdade. Escusado será acrescentar que mostrar pedaços de corpos não explica, não ajuda, não informa. Como os mirones dos acidentes na auto estrada, entope. Ficamos bloqueados com o horror, não compreendemos nada e por isso não conseguimos pensar soluções.
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2 thoughts on “Eu não estava lá

  1. É isso mesmo, precisamos de pessoas com consciência e capacidade analítica. Todos os dias somos obrigados a ser condescendentes, temos sistematicamente que nos substituir aos outros, fingir que temos noções parecidas para que os outros nos compreendam e acompanhem. Por mais pretensiosas que possam parecer estas palavras são escritas sem qualquer sobranceria, as pessoas acreditam que aprenderam o que é viver e seguem de forma precisa este seu ideal. Não percebo como isto foi acontecer, pessoas mortas em vida que acreditam ser únicas e individuais apenas porque existem para os outros.

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