Rentes ao fim do mundo

Amanhã são as eleições holandesas, a Holanda é uma das veias da Europa – saída natural geográfica do coração da comunidade do aço e do carvão, fundadora da CECA, isto é, da UE; e hoje – por extensão do seu domínio comercial – centro financeiro mundial. Não fazemos ideia de quanto do que consumimos e meios de pagamento circulam pelo porto de Roterdão ou pelas instituições financeiras Holandesas – não por acaso estão lá a maioria das grandes empresas do PSI 20 português. A Jerónimo Martins é uma espécie de sucursal da gigante mundial da distribuição holandesa, a Unilever, que circula os excedentes da Política Agrícola Comum e gere pagamentos.

O Porto de Roterdão, no delta do rio Reno, tornou-se a saída natural da região do Ruhr, ainda hoje o coração industrial alemão – todas as cidades pequenas juntas do Ruhr têm mais densidade do que Londres ou Paris e é no Ruhr – palco das guerras entre a França e a Alemanha – que está ainda hoje incorporada alguma da produção com mais valor agregado do mundo – pistons de aço de topo, trabalhados muito para além do milímetro, por exemplo (realizado por operários altamente qualificados cujos salários brutos podem atingir os 6 mil euros, para dar um exemplo). Estão em grande medida sindicalizados numa das mais fortes estruturas laborais do mundo, que financia o SPD alemão – o IG Metall. Os holandeses conquistaram pela força rotas comerciais aos portugueses, terão incorporado também algum do saber cartográfico e matemático de judeus expulsos da Península. Ainda hoje, ao lado da Sinagoga Portuguesa – Espinosa, nascido nos Países Baixos, era filho de judeus portugueses – dizia ainda hoje, ao lado da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão está a estátua ao estivador, erguida em nome da maior greve contra o nazismo realizada na Holanda, em 1941, quando um decreto de trabalho forçado obrigada os judeus do porto de Amesterdão e operários navais de Roterdão a serem recrutados para os fábricas de guerra do expansionismo nazi. A greve contagiou todo o norte de Amesterdão mas como sabem foi derrotada. O balanço do nazismo são 60 milhões de mortes, foi a saída natural da burguesia e pequena burguesia alemão face à crise de 1929 e à luta dos operários contra o desemprego e a miséria.

A Holanda é uma sociedade mais conservadora do que parece. Amesterdão tem uma população rotativa de 50% – não é a Holanda. Amesterdão é um lugar turístico, com destaque para o turismo sexual e das drogas leves. Mas a Holanda é toda uma outra realidade. Uma política estatal financia os reformados com 700 euros mensais além da reforma, ricos ou pobres – mas uma mãe não consegue colocar os filhos na creche sem pagar em média uma brutalidade – 500 euros por duas tardes numa creche. Isto porque o desemprego baixo holandês é artificialmente garantido por uma política do Estado financiar que as mulheres fiquem em casa com os filhos – recebem para ficar em casa mas não para pagar a creche. 90% dos trabalhadores em part time são mulheres. Só 15% das professoras universitárias são mulheres e 1% catedráticas. Quando saem de casa ao fim de 4, 6 anos com os filhos as mulheres assumem trabalhos que são uma extensão do trabalho doméstico prévio –  são professoras, assistentes sociais, etc.

É uma sociedade rica, em média. Mas 20% dos trabalhadores ainda se encontram no sector industrial – empresas como a gigante Philips – e esta estatística mascara o facto de  que muitos sectores de indústria aparecem estaticamente como sector dos serviços. A Holanda tem uma das mais intensivas e desenvolvidas agriculturas mundiais, parcelada mas altamente produtiva. Um amplo mercado interno. Tudo indica que o voto na extrema-direita vem da chamada pequena burguesia xenófoba e proprietária, mas também do voto do partido social-democrata, no poder a partir da segunda metade dos anos 90. Grande parte da classe trabalhadora vota no Socialist Party, um partido de esquerda com mais representação hoje dos que os social democratas. Tem origem no maoismo, forte na Holanda e Bélgica na década de 70, mas tornou-se diria algo como um partido verdadeiramente social-democrata. O desastre do neo liberalismo, em suma, explica, mais do que as migrações, a ascensão desta direita assustada. Geert Wilders, o «Trump holandês» oferece proteccionismo,  expulsão e guerra como receita para o desastre neoliberal – está numa ponte encurralado, olha para um lado e vê social-democratas e liberais a salvar bancos, olha para o outro e vê operários e sindicatos desmoralizados com o fim do pacto social. Está disposto a fazer explodir a ponte.

Celebram-se agora os 60 anos do Tratado de Roma que fundou a CECA/CEE/EU, não foi o movimento operário directamente mas a II Guerra Mundial que colocou o proteccionismo francês e o expansionismo alemã numa rota obrigatória de cooperação. A crise de 2008 coloca-os novamente na rota da guerra. Wilders não vai ter votos para formar uma coligação. Não para já. Mas um alarme toca já em toda a Europa, mesmo que no grito desesperado e leviano  – sem outro fim que não o fim do mundo – de um escritor emigrante, Rentes de Carvalho. Vai a burguesia europeia suicidar-se como em 1939? E o movimento operário, ainda tão forte, no centro rico da Europa, vai deixar?

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