Mulheres na Revolução

O processo de ocupação do atelier Candidinha, na capital, na revolução dos cravos, é um exemplo magnífico que ilustra como a luta contra a descapitalização de uma empresa se transforma numa luta que rompe as amarras da opressão feminina. Na luta pelas condições de trabalho surge a questão do trabalho reprodutivo/doméstico (cuidado das crianças, da casa, etc.).
De acordo com o locutor da RTP – protagonista de um jornalismo também ele engagé – o atelier Candidinha mostrava a:
 
«Decadência de uma classe altamente privilegiada que perante a revolta dos explorados furta-se à sua responsabilidade… foge! A clientela foge! Dois dos patrões fugiram, desde abril que não pagam o salários, não comparecem a reuniões com a comissão de trabalhadores.»
 
O edifício, em plena Avenida da República, umas das principais artérias de Lisboa, está repleto de cartazes reivindicativos, assinados pelo MDP, pelo MFA, ou simplesmente não assinados. Veem-se dezenas de operárias, algumas crianças. Algumas mulheres trabalharam naquele atelier 17 anos.
 
«As operárias ocuparam o atelier. Organizaram-se em regime de autogestão provisória. Reúnem-se em plenários onde pela primeira vez decidem abertamente entre colegas de trabalho os problemas da exploração de que foram vítimas e a melhor forma de superar a situação atual. Formaram piquetes.»
 
Uma das trabalhadoras conta que descobriram que o patrão «gravava as conversas». A câmara filma a secretária do patrão que em cima tem dois bibelôs de madeira onde se pode ler: «Cuidado. Estou muito mal disposto», «Danger. Explosive boss».
Vale a pena percorrer alguns testemunhos um a um:
 
Uma trabalhadora: «Já nos encontrávamos muito mal porque já antes do 25 de Abril a situação da alta costura era degradante, as senhora fugiram, eles reuniram-nos na sala de trabalho, na sala de provas, e o Sr. Miguel contou-nos muitas coisas, que estávamos mal, que “tínhamos que fazer pronto a vestir, que não tinham isto e aquilo”… e puseram-nos logo em maio a quatro dias e eu fui falar com ele e disse-lhe que não podia e [levanta a voz] ele riu-se, o Cristóvão enterrou-se pelo cadeirão [ela enterra-se a imitar, enquanto fala] e eu nem passei da porta do escritório e disse “Não sabia que tinha tantas filhas”, ainda a gozar-nos…»
 
Outra trabalhadora, visivelmente feliz, de sorriso aberto, que faz parte dos piquetes [que funcionavam dia e noite para evitar que o patrão lá fosse tirar as máquinas]: «Tínhamos que entrar sempre pela porta de serviço, só davam entrada às senhoras do salão. Nós era pela porta do cavalo. Acostumámo-nos a não ter um refeitório onde comer porque o refeitório albergava umas 20 pessoas e nós eramos umas 70, tivemos que continuar a comer nos ateliers e sempre a ralhar connosco se o trabalho aparecia sujo. Uma vez, estávamos aqui a comer quase como os animais, todas juntas (…). Eu tenho já 28 anos, nunca passei por estas coisas, há palavras que eu nem sequer sabia o que significavam e atualmente sei cá na casa (…) temos uma experiência amarga e outras vezes alegre. Por exemplo, eu sou casada, tenho uma menina com 3 aninhos e há dias que tenho que sacrificar muito por ela, e pedir às amas, e aborrece-me com o meu marido mas enfim espero que isto traga para nós melhores dias».
 
Uma outra trabalhadora, muito novinha: «Dou-me muito bem com as minhas colegas, entretanto tive que dizer em casa que tinha que vir para os piquetes, dizer aos meus pais. É bastante aborrecido porque sou nova e eles não queriam de maneira nenhuma que eu ficasse uma noite fora de casa (…). Há aquele aborrecimento de ficar fora de casa, a minha mãe não consegue dormir, mas o meu irmão veio há pouco de fora e convence-os que eu tenho que ficar (…). Gosto muito de conversar aqui com as minhas colegas, por exemplo, de coisas que nunca falámos. Depois do 25 de Abril fiquei a saber coisas horríveis como era aquilo dos presos políticos… Nunca pensei que houvesse…»
 
Ainda mais um testemunho de uma trabalhadora, muito animada:
 
«Tenho tido muitos problemas com o meu namorado. Por acaso até tive agora na sexta-feira. Mas não podemos levar tudo a peito e temos que ter força de vontade e ajudar as nossas colegas nesta luta. (…). O meu namorado acha que a luta é boa, mas há dias piores. Ele faz anos na sexta-feira e quer que eu não venha aqui para a luta e passe o aniversário com ele, e eu pedi a elas e trocámos os turnos para os piquetes. Mas se não trocassem era minha obrigação vir para aqui para a luta.»
 
Do Capítulo sobre mulheres do meu livro História do Povo na Revolução Portuguesa, Bertrand, 2014.
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