Homem de grande firmeza e generosidade

Homem de grande firmeza. Zeca Afonso homenageou-o assim na música que cantava os seus feitos, cujo percurso juntou duas influências decisivas da segunda metade do século XX: o catolicismo progressista e o guerrilheirismo revolucionário de base camponesa, pós revoluções chinesa  de 1949 e cubana de 1959. O homem e as suas circunstâncias, portanto? Nem tanto. Nem sempre. Alípio começou por ser o que não era. É um revolucionário que nasceu para ser um conservador. Estava destinado a manter e reproduzir as estruturas da sociedade tal como ela se tornou – ou seja, manter os pressupostos que asseguram a mercantilização de todas as necessidades humanas. Em algum momento rompeu idealmente com isto, talvez quando foi viver junto dos mais pobres em Trás-os-Montes. Não sei. Não chega o encontro com a pobreza para nos levar a questionar a sua propalada inevitabilidade. O momento em que rompemos com um determinado quadro interpretativo do mundo é íntimo e em geral um salto qualitativo que é precedido de longas mudanças – mudamos, muito, mas só depois de grandes caminhadas, cansativas subidas e enormes quedas. E, claro, impulsos de amor. O sofrimento e o amor mudam-nos. Mas toda a mudança é mais lenta do que o seu momento visível.

A ruptura, idealista, com o quadro da manutenção da propriedade privada, dos privilégios de classe, da exploração do trabalho alheio deu lugar a uma ruptura material em Alípio, capaz de influenciar e transformar a realidade. Não rompeu em palavras com a sociedade capitalista, rompeu com o gesto mais distinto que existe – tornando-se dirigente de colectivos organizados. Para isso são necessárias qualidades raras, combinadas. É porventura o trabalho mais difícil que há – organizar colectivos humanos, com estratégia. Começou então um longo trajecto que a muitos pode parecer quixotesco mas que não se resume, como o nosso fidalgo de la Mancha, a ver nos outros o que eles não são – os revolucionários vêem nos outros o que eles podem vir a ser. Isso exige ver mais e mais além, e requer muita generosidade. Ver em comunidades pobres do mais pobre dos Estados brasileiro, São Luís do Maranhão, como se podia cooperar onde grassava apenas a luta pela sobrevivência é muito mais difícil do que ver a Dulcineia onde ela não está. Também exige, porém, escolhas, logo, conflitos, rupturas, e isso não se faz sem imensa coragem. Para abraçar um lado da humanidade é preciso combater o outro. Os sonhos só existem porque há homens que construíram os caminhos para eles. Alípio é um deles. Há poucos.

Nota: Este texto foi escrito para o livro que a Guadalupe Magalhães, pessoa de doçura e capacidade de organização raras, reuniu dedicado a Alípio de Freitas, seu amor.

 

 

 

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One thought on “Homem de grande firmeza e generosidade

  1. Não sei se é do conhecimento geral?
    O Zeca Afonso, vai ter uma Homenagem (já não era sem tempo), no dia 21 de Março no Teatro da Trindade, pelas 21 horas. E como todos sabem, ou deveriam saber, foi desprezado pelo P”C”P e Luar na altura, e morreu na miséria. Visto ele ter tido algumas ligações, com estes partidos.
    Nem fascismo Nem social-fascismo

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