O Direito a duvidar

Sobre a polémica aqui sobre o aquecimento global, algumas notas:

1) Por razões pessoais estou próxima de vários cientistas que trabalham directamente na área, há décadas, não trabalham para governos, empresas e há anos que se queixam – não são um ou dois casos – de pressão para só ter projectos aprovados quando são favoráveis à hipótese do aquecimento global.

2) Do Painel Intergovernamental das Nações Unidas saíram cientistas sérios – também saíram cientistas comprometidos com interesses – que denunciaram pressões para chegar a resultados que não estavam comprovados.

3) O aquecimento global é uma hipótese, com amplos estudos que merecem que seja debatido, não é uma lei. A lei da gravidade é lei – indiscutível; o aquecimento global (com origem ou não no homem) não.

4) Uma das razões assinaladas foi o facto de as medições de temperatura não terem uma escala longa – pouco mais de 100 anos – e serem sobretudo em terra, quando o planeta é sobretudo água. Por isso pediam cautela nas conclusões.

5) Nunca nenhum destes cientistas questionou medidas de Estado contra a poluição – antes do “aquecimento global” há muitas outras intervenções da industrialização descontrolada e da falta de relação equilibrada cidade campo que têm efeitos hoje, não daqui a 50 anos, devastadores: doenças respiratórias, cheias, cancros, só para citar os mais óbvios etc.

6) Daí não se pode concluir, como fazem os media com frequência, que a cada fenómeno natural normal – tempestade, chuvas intensos, ondas de calor – está provado o aquecimento global.

7) Há uma ligação exponencial entre patentes, impostos verdes e a amplitude que ganhou a hipótese do aquecimento global.

Sou aquilo que se chama uma cidadã mais ou menos exemplar: ando de transportes públicos, bicicleta, como comida biológica, reciclo (não sei é se o que eu entrego para reciclagem é reciclado ou acaba numa simples queima!) e tenho a certeza que a humanidade está a viver um apocalipse, chamado capitalismo – metade da população mundial vive abaixo do limitar da pobreza e a indústria que mais produz não é a de livros, alimentação, casas, vinho, roupas e cultura, é a de armas. Mas não gosto nem nunca vou compactuar com a pressão estilo “tribunal plenário” que se faz sobre cientistas, de cada vez que estes pedem aquilo que é elementar na nossa profissão: o direito a duvidar.

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3 thoughts on “O Direito a duvidar

  1. Mistura questões pertinentes com desinformação. Relativamente aos pontos que levanta:
    – 1 – Não é só nesta área que isso acontece. Esse facto não quer dizer que o conjunto de 30000 artigos que ajudaram a construir o ultimo assement report estejam errados. A suspeita que levanta é uma inferência porque está implicitamente a sugerir que existe uma conspiração de cientistas;
    – 2 – Sim, isso de facto existiu, mas com que dimensão e em que momento? Este ponto está ligado ao ponto anterior e que se deve sobretudo a uma cultura democrática sofrível em que a dúvida não é bem vinda. Numa fase inicial de maior incerteza existiram falhas de transparência mas neste momento não há sequer a necessidade de esconder como foram atingidos os resultados. Os dados estão disponíveis bem como os modelos;
    – 3 – As alterações climáticas, que se manifestam em alterações de padroes climaticos (como os padroes de precipitação) e fenómenos climáticos extremos (como furacões) são um facto científico. Poderá encontrar as ligações até aos artigos fonte que sustentam estas conclusoes no fifth assessement report do IPCC. O aquecimento global é o que de certa forma provoca as alterações climáticas. De certa forma porque na verdade o que acontece é que a energia solar fica aprisionada na atmosfera, o tal chamado efeito estufa. A acumulação de energia pode originar um aumento de temperatura, mudanças de fase (gelo a derreter) ou fenómenos altamente energéticos (como tempestades). A causa das alterações climáticas está estabelecida como sendo antropogénica, por analise estatistica de registos climaticos, árvores, corais, fósseis e gelo. modelos climáticos. Ainda existe incerteza mas ela diminui com o passar dos anos neste momento é considerado 95% provável que as alterações climaticas sejam antropogénicas;
    – 4 – Este ponto é bastante incorreto. Existem fontes de medição em terra, no mar, no ar, por observação de satélites e as que referi no ponto anterior;
    – 5 – Não vejo porquê que esses cientistas deveriam estudar com profundidade os efeitos da poluição mas de qualquer forma as estratégias de adptação às alterações climáticas e mitigação são tendencialmente mais locais, mais intergradas com o ambiente, menos poluidoras. Por exemplo, criar hortas urbanas biologicas diminui a pegada ecológica (o que inclui as emissões de carbono), menos transporte, menos lixo e cria ligação das pessoas com a sua comida, Também pode permitir maior resiliência a ondas de calor devido ao efeito moderador da temperatura que as plantas têm. Para mais exemplos poderá verificar o projecto ClimaAdaPT ou o Adaptation Inspiration Book;
    – 6 – Concordo
    – 7 – Está a fazer uma inferência, mas concordo em parte. Claro que existem empresas que querem lucrar com o combate às alterações climáticas e claro que estão a puxar a brasa à sua sardinha. Nós, sociedade, é que temos de fazer a seguinte questão: será que estamos a investir bem numa dada solução ou existem alternativas? Por exemplo, será que em vez de eu investir em carros eléctricos e renováveis, poderia alterar a forma como se pensa as cidades e evitar as deslocações “all together”? Não seria tão lucrativo para algumas empresas mas os ganhos para a sociedade seriam (inferencia da minha parte) muito superiores. Eventualmente o mesmo se poderá dizer sobre produção verde vs não produção de coisas ínuteis, ou transportes públicos vs mobilidade suave. Há que questionar as soluções e compara a sua eficácia (que incluí efeitos multiplicadores) com o seu custo, não a sua necessidade porque essa parece-me bastante sólida.

    Faz muito bem e melhor que eu em termos de estilo de vida e ao seu nível chegarei. Percebo que sinta que há coisas que são impossíveis de questionar mas isto é o mesmo que alguém lhe vir contradizer factos históricos com a sua precepção pessoal. Sabe que conheço algumas pessoas que adoravam o tempo do Salazar e só têm boas coisas a dizer sobre a influência de Portugal nas antigas colónias. Sobre isso certamente saberá melhor do que eu o que a ciência tem a dizer mas certamente alguém lhe vai responder que é impossível obter financiamento para rebater o seu contrário (pois podera).

    Eu proprio sou muito céptico sobre alguma ciência e peritos qualificados mas temos de viver com isso, a começar com os iluminados que nos deram este acordo ortográfico, que apoiam a energia nuclear ou que nada têm a obstar em relação aos antibióticos ou vacinas. Haja democracia.

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