Andámos em frente

Há uma década venceu o movimento pela despenalização do aborto, de que fiz parte. Em nome de uma reflexão sobre o papel da mulher na sociedade que saia dos chavões banais, quatro notas para ajudar a pensar o país e o tema:

1) Não foram as mulheres que lutaram, foram – estive lá – tanto as mulheres como os homens;

2) foi um movimento policlassista, mas onde o liberalismo, de esquerda e de direita, teve um peso importante, não foram os sindicatos por exemplo os que mais se empenharam mas partidos de sectores médios de esquerda, como o BE;

3) Portugal teve uma das revoluções mais profundas, democráticas e civilizatórias de toda a história mas não foi o movimento operário – que impulsionou o Estado Social e o pleno emprego em 74 e 75, foram homens e mulheres operárias que foram o factor de arrastamento de direitos para os sectores médios na revolução dos cravos -, que se destacou na discriminalização do aborto. Os operários, e as operárias, que ainda existem a uma taxa real de quase 20% da força de trabalho, não foram a força propulsora do movimento de despenalização em 2005.

4) Foi genial a mudança táctica dos coordenadores da campanha da tónica na liberdade do corpo para a não prisão das mulheres, isso mudou o resultado, sem mudar os princípios e os fins.

Guterres e a direita conservadora perderam, e devem-nos um pedido de desculpas: a lei foi um sucesso, diminuiu o número de abortos, de problemas de saúde associados ao aborto clandestino, melhor saúde pública, materna, uma das raras coisas em que progredimos para a frente.

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