Apagar a História, 100 anos depois

Uma deliciosa piada estalinista dizia que na URSS o futuro é certo mas o passado imprevisível.

Corremos o risco de ver as nossas democracias liberais caminhar pelo mesmo caminho, no centenário da revolução russa. Pensei que o grande revisionismo nos 100 anos da revolução russa seria estilo Furet com a revolução francesa, uma efabulação. Enganei-me.

Porventura porque na academia, e sobretudo nas melhores universidades dos EUA, da Inglaterra e da Alemanha – hoje as evidências históricas são incontornáveis. Demonstram, ao contrário da tese mediatizada, que há um corte radical entre a política bolchevique (1917-1927) e a política Estalinista (1927-1989…com boa vontade iríamos até Putin aqui). Entre a revolução e a contra-revolução, portanto.

O grande revisionismo deste centenário tem algo de estalinista, curiosamente. Ele faz-se publicando biografias de Estaline, livros, “esquecendo” os dois dirigentes máximos da revolução, Lenine e Trotsky. E todos os outros. Apagando-os da fotografia. E lá para o fim da biografia do Estaline colocar algo como «se tivesse sido Lenine ou Trotsky tinha sido igual». Na profissão de historiador chama-se a isto um «contractual», o «se». Na falta de factos inventa-se um «se».

Ora o se aqui não tem como ganhar sentido. Lenine morreu em 1924, não teve tempo para se algum, deixando aliás um testamento onde definia Estaline como um bruto e sugeria ao comitê central afastar esse perigo bonapartista. Leon Trotsky, que foi o general que liderou a vitória do exército vermelho sobre os 14 exércitos estrangeiros invasores, foi o homem a quem lhe perguntaram porque não tinha pegado em armas contra Estaline e ele respondeu algo como «se o tivesse feito além de uma ditadura burocrática teríamos uma ditadura burocrático-militar» porque a chegada ao poder de Estaline não é resultado da revolução mas da sua derrota.

Explico-me. Explicou ele. O Socialismo é abundância, a URSS era restrição, escassez. A URSS estava no final dos anos 20 com uma produção inferior à de 1914. Não havia nem ciência, nem quadros, formação, tecnologia, máquinas, para produzir muito para todos. A solução era ou uma revolução na Alemanha e nos países onde havia desenvolvimento; ou uma ditadura de uma minoria – a burocracia do Partido – que se apropria desses bens e passa a dar muito a muito poucos. Para o fazer, para que uma casta se aproprie dos bens de todos, transforma-se numa ditadura e passa a dar muito a muito poucos.

Recomendo o premiado livro do historiador norte-americano Kevin Murphy. Ou ainda o grupo de estudos da revolução russa da Universidade de Glasgow – mais de cem investigadores; Hillel Ticktin e os seus trabalhos sobre o estalinismo; Wendy Goldman sobre o papel da mulher. Só para citar uma percentagem ínfima do melhor que acadêmicos têm produzido nos últimos 10 anos em arquivos soviéticos.

Todas estas investigações das últimas 2 décadas feitas a partir de arquivos russos provam um corte radical entre o leninismo e o estalinismo, e esse corte dá-se em 1927/28 – é nesse ano que se dá a colectivização forçada, a introdução massiva do trabalho forçado a uma escala de centenas de milhar até depois da guerra, o início da militarização da sociedade, é nesse ano que nas fábricas a comissão de trabalhadores deixa de ser o órgão mais importante para passar esse papel a ser desempenhado pelo chefe da polícia politica; é nesse ano que as mulheres, que deram com a revolução russa o maior salto de sempre de emancipação, passam a ser de novo escravas do lar e da fábrica, com medidas como a reintrodução da proibição do aborto e o encerramento de creches.

Celebrar os 100 anos da revolução que no seu início deu mais direitos do que qualquer regime na história – de sempre até aos nosso dias – com a figura tétrica de Estaline dá jeito a quem quer manter a apoplexia intelectual de que não há alternativa aos regimes actuais, na verdade um prolongamento do “fim da história”. Dá jeito mas não é história, é propaganda.

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