Em casa onde não há organização todos gritam e ninguém tem razão.

Hoje tive duas experiências unidas por escassas horas, marcantes, porque antagónicas da vida em sociedade, embora no mesmo “local” – um banco. Uma de civilização, a outra de barbárie.
A primeira quando fui dar apoio ao piquete de greve dos jovens adultos, trabalhadores de call center do banco Barclays, contratados pela intermediária Teleperformance. Exigem viver com salários dignos. Há jovens que lutam – são estes. Perderam um dia do salário – mínimo – para dizer “não conseguimos viver com o salário mínimo”. Estava uma mãe com uma filha de 7 meses ao colo, explicou-me que era impossível, mesmo com 2 salários de 600 euros, pagar as contas. Organizaram-se, fizeram greve, uniram-se, dialogaram entre eles, reuniram-se, encontraram força uns nuns outros. Enquanto o Governo anda entretido a dar benesses aos patrões que mantêm o salário mínimo, eles vieram dizer que é um valor indigno. A administração – confirmei com os meus olhos, porque foi no momento em que cheguei ao antigo prédio da Marconi – nem os recebeu. Assim vai o delicado e elegante patronato que enche a boca de eufemismos como competitividade e inovação. Nem abre a porta aos seus «colaboradores», nem lhes conhece o rosto.
Uma hora depois fui ao banco, excepcionalmente às caixas, já faço tudo automatizado, ou seja, uso mais os serviços informáticos e os call center. Estava na fila quando uma senhora de 50 anos, sensivelmente, refilou com uma jovem que, por estar a falar ao telefone, perdeu a sua vez e depois foi na vez da senhora. Os ânimos exaltaram-se, ou seja, a desigualdade, a competição e a má educação vieram ao de cima, e a senhora, de roupa e porte muito humilde, mandou a jovem, negra, de sotaque brasileiro, creio, «para a terra dela». Diz o roto ao nu, pensei. A jovem, furiosa (quantas vezes já deve ter ouvido isso!), gritou, tirou o cartão de cidadão e disse-lhe que esta era a sua terra. Olhei para a senhora e disse-lhe, com calma, que esta terra é de todos nós. Outra negra veio em seu auxílio e bateu com a mão na cara da senhora. Levantei-me – fui a única – e disse que o que se passava ali era intolerável e coloquei-me entre a jovem e a senhora, não deixando que lhe batessem. A outra ameaçava «dar-lhe na cara». Disse à senhora mais velha que não se pode dirigir assim à jovem, é racismo, proibido, indecente; olhei para as jovens negras e disse-lhes que não se pode gritar e bater, é inaceitável, muito menos uma pessoa mais jovem numa senhora; entretanto já tinha vindo mais uma jovem, também negra, que disse «a senhora ofendeu todos os negros», e as três ameaçavam a senhora. Tentei – embora a gritaria fosse de tal ordem que era difícil – dizer que todas se deviam acalmar, que racismo é feio, bater em pessoas mais velhas é feio, três a bater num é muitoooooo feio, tudo num tom calmo. Em vão. Os berros delas, todas, impunham-se…até que o bancário veio ter comigo e levou-me dizendo que me ia atender à parte, deixando para trás a gritaria, que não sei como terminou. Fui. Não tenho tempo para ajudar a salvar indivíduos desesperados desorganizados. Nem paciência, para dizer a verdade.
O bancário contou-me depois que isto «está cada vez pior». As pessoas acham «que os bancos têm culpa de tudo», disse-me, e «ao telefone ainda é pior!». Em casa onde não há organização todos gritam e ninguém tem razão. Imaginei a gritaria e as ofensas que estes jovens que hoje conheci em greve devem ter que ouvir…
Entre patrões brutos, e indivíduos à solta rudes e desesperados, os educados, simpáticos e corajosos da greve da Teleperformance salvaram o meu dia. Grata.
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3 thoughts on “Em casa onde não há organização todos gritam e ninguém tem razão.

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