Prefácio “Democracia”

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«Depende de nós se crescemos ou mirramos. Pois a luz que nutre as nossas raízes, o fogo que endurece o barro vem de dentro de nós, enão de Deuses ou de Governantes».

Durante a ocupação nazi a resistência armada grega fez uma votação clandestina que recolheu, sob as barbas do exército nazi, 2 milhões de votos. A primeira vez que as mulheres tiveram o direito de voto na Grécia foi nessa votação, em 1944, quando os trabalhadores estavam armados, mas quando o país foi libertado, num acordo de partilhas entre Churchill e Estaline, o direito foi retirado e as mulheres na Grécia só voltaram a votar nos finais de 1950. Curiosamente não é este o exemplo evocado para falar das origens da democracia grega hoje em dia mas uma sociedade escravocrata da antiguidade. Escravocrata onde, pese embora limitações, a monopolização do poder político e militar era, por exemplo, inferior à da Idade Média. Na Grécia Antiga, com a exclusão de grande parte da sociedade, foi-se apesar de tudo longe na combinação, parcial, de direitos políticos e económicos.

Este é um livro sobre essa sociedade mas não só. Por desenhos magníficos, cores fortes, e metáforas elucidativas, os autores discutem connosco algo a que se poderia chamar o “espectro da auto-determinação”, ideia cunhada pelo anglo intelectual saxão Perry Andersen. Ou seja, como evoluíram os direitos, se ampliaram, se conquistaram, como chegámos aqui desde lá. É um livro, provocam os autores, sobre como sair do «nosso lugar», um lugar que a democracia dá a um grupo restrito de pessoas, na antiga Grécia, e que hoje está restrita a uma noção pequena de direitos – os direitos políticos (imprescindíveis), dos quais estão excluídos os direitos económicos e sociais, na sua maioria. A «ordem das coisas» natural – é aqui demonstrado, com o exemplo da antiguidade – não é afinal uma ordem «natural» mas uma escolha histórica, entre opções de uma sociedade em grande conflito, com classes sociais fragmentadas, tensas, cidades em guerra, grupos em luta.

O lugar da autodeterminação – ampliação de direitos – expandiu-se notoriamente nos últimos duzentos anos, ao ponto de ter atraído para as artes, a literatura, a poesia, e história e a política um conjunto de projectos emancipadores como jamais tinha tido lugar na história da humanidade – se na Antiguidade a revolta de Spartacus é o exemplo, no século XX são às dezenas os processos revolucionários que foram a explicação dos direitos, mas também mostraram as insuficiências da «conquista do poder» numa nação isolada, nacionalista. Os autores provocam-nos hoje com o sonho, o lugar do sonho na construção das sociedades está sempre presente neste livro, não ocultam a presença da barbárie – que espreita sempre – mas dão um espaço amplo aos pensadores e à capacidade de construção humanas. Pelos caminhos da filosofia, e também da mitologia, da relação pais/filhos, dão nos a conhecer a culta da antiguidade grega, num trabalho sobre o passado que sempre convoca o presente e, por isso, o futuro. No meio uma provocação, «Entrámos numa nova era e esta nova era exige novas responsabilidades (…) terá a coragem morrido em Atenas?»

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