O médico tem liberdade, o doente não.

A eutanásia não é uma “questão de consciência” para os médicos. É-o para os doentes. Porque o médico tem liberdade, o doente não. Comparar o sofrimento do médico que administra a substância com o sofrimento do doente que a toma é sintomático de uma sociedade que perdeu o Norte em matéria de valores.

Eu posso ter consciência em praticar algo que me crie repulsa ou dor por compaixão, respeito e amor ao próximo. E a melhor consciência é a de que vivemos em sociedade. E a grande doença do século XXI – ohhh se é – chama-se individualismo, e todas as “pancadas” daí derivadas (pânico, depressão, etc). Disso não tenho hoje qualquer dúvida. Coordenei um trabalho para o CRS da Ordem dos Médicos sobre a História do SNS. Contra os simplismos habituais dos médicos “são corporativos”, são “arrogantes” etc. tenho tentado, ao longo destes anos, mostrar a indissociabilidade entre a defesa das carreiras médicas e do SNS, ou seja, a defesa do salário dos médicos para garantir a nossa (e a deles) saúde. Quanto melhor ganharem, no serviço público, mais saúde teremos – estou plenamente convicta disso. Do ponto de vista sindical pior que ser corporativo é não ser nada, se me permitem roubar a frase do poeta. Sou, por isso acho, insuspeita neste campo da atitude dos médicos, de grande parte deles, face à eutanásia.

Ver grande parte dos médicos ser contra a eutanásia por causa da sua consciência não é uma reacção corporativa nem de consciência, é uma tremenda resposta individualista de quem tem poder. É como aqueles tipos que quando vêem alguém a sofrer entram em histerismo ou desmaiam. Ou fogem. Porque, algures numa parte escondida do inconsciente o seu sofrimento de ver alguém com dor é mais importante do que a dor real do outro. Narcisismo, chama-se. Há uma epidemia. Mais do que diabetes.
Escudar-se numa palavra bela – liberdade – para dizer que não estão dispostos a aliviar o trágico sofrimento de alguém é na verdade sintoma do pior que vivemos hoje na nossa sociedade – o “eu” primeiro.

Ontem estive numa reunião associativa por razões familiares e quando soube que estava um militar no grupo pedi-lhe para assumir com ele uma tarefa – nem sei se é de direita ou de esquerda, nem lhe perguntei, o que eu não quero é fazer algo com alguém que acha que tem menos obrigações do que eu, e sei que na tropa aprende-se o que às vezes, cá fora, o mais de esquerda e progressista ser humano não faz ideia – que vivemos uns para os outros. Que não podemos largar as nossas responsabilidades. E que proteger os outros hoje é amanhã poder exigir-lhes que façam o mesmo por nós – mesmo que isso lhes custe, lhes doa, lhe dê vontade de desmaiar. Chicotearem-se com o pecado mágico (chamar “matar” à eutanásia é historicamente isso, pura magia), é sempre menos doloroso do que estar a morrer no limite do sofrimento e não ter alguém que nos ajude a pôr fim a isso. Não é bom nem agradável, mas alguém tem que o fazer, em nome de um bem maior – proteger os outros do mais terrível fim que os espera.

Advertisements

2 thoughts on “O médico tem liberdade, o doente não.

  1. De médico e de louco…
    Há temas que chamamos de “fracturantes” pelo tumulto de diversidade de opiniões que geram. Têm o potencial de desencadear zangas de amigos e conjecturas existencialistas ou de absorver os espectadores de todos os acontecimentos circundantes. Libertam-se argumentos fervorosos , associações de ideias falaciosas, misturam-se razões e emoções.
    Suspeito mesmo que o seu debate é incitado quando 40 ladrões precisam de fugir com o saque, mas isso talvez seja loucura minha.
    Bom , parece ser o caso da eutanásia .Confusão instalada nos media e na assembleia da república com o debate da coisa, que parece ser nova , mas não é. E a confusão é geral.
    Somos antes de mais postos em analepse , a ver o filme ao contrário para respondermos num “regresso ao futuro”.
    O primeiro problema é a semântica .
    É uma questão colocada ainda de forma mais complexa que a do aborto, ou IVV , à boa maneira lusitana .
    Via-se no Prós-e-contras, nas petições de movimentos de cidadãos e prosseguia na AR e nos artigos de opinião- cito , “Concorda com a despenalização da morte ( digna) medicamente assistida?”, no estilo- “não se importam , pois não?”.
    Antes de tirar conclusões e esgrimir discussões , procuro analisar os dados e os métodos em busca de viéses. É que estando enviesada a análise dos dados , ou estando estes incompletos ou mal colhidos de pouco valerá a discussão para chegar a conclusões correctas. Quem diz dados diz conceitos e definições , que não podem estar enviesados no sentido de um resultado desejado.
    Então vejamos.
    São estes os conceitos que estão na base da discussão e que na melhor das hipóteses foram colhidos no google, ou no scrabble, e os quais convém desmontar:
    “A Morte digna”. – Mesmo “o morrer na praia” no dia D, em prol de um bem maior, é altamente subjectivo e historicamente subvertido. Isso não existe . Se digno é morrer sem sofrer , chamem os bois pelos nomes, que eu também quero essa morte dita digna . “Acordar morto”, como diz o povo! Todos queremos uma velhice ou uma morte santa.
    “Despenalização”” da morte assistida- não se pode despenalizar aquilo que não existe . Assalta-me a memória a rábula ao prof. Marcelo Rebelo de Sousa sobre o aborto, feita pelo Ricardo Araújo Pereira. Parece que queremos que uma coisa exista para a podermos despenalizar. Pois parece.
    “Morte assistida”- Isto é um eufemismo para eutanásia? não me confundam por favor, pelo menos não logo de início. Se eu apertar o pescoço a alguém estou a assisti-lo a morrer ? De que estamos a falar? De um modo geral ou de um modo particular? E quão particular seria esse modo? Suspeito que quanto mais particularizarmos mais fracturantes nos tornaremos e maior a probabilidade de não alcançarmos o consenso. O desejado consenso, esse. E suspeito que quem coloca a questão nestes termos também suspeita do mesmo.
    “Medicamente assistida”- Já solto dois palavrões e logo depois duas gargalhadas. Então finalmente vai-se finalmente abordar o tema da legislação do acto médico na Assembleia da Republica e o acto inaugural a legislar será, a morte!? Genial… Mas porque raio se foram lembrar dos médicos para os castigar novamente, não acham que chega ? Então a acupuntura e a homeopatia, por exemplo? Não será descriminação?
    Enfim, finda esta minha loucura inicial quero seriamente deixar alguns avisos à navegação.
    Estamos a falar de um assunto muito sério e que não tem cabimento na Assembleia da Republica (e nem sequer nas mesas de café, com o devido respeito) . É um assunto extremamente complexo nas suas vertentes jurídica, ética, moral e deontológica. Entendam-me bem: a discussão pode ser tema de livro, de filmes, de opiniões poéticas e apaixonantes e pode até ser tema de arremesso político …., mas a sua análise e regulamentação não pode ser menos que tema de doutoramento em direito ou em bioética. Quem tiver a soberba de pensar o contrário apenas faz triste figura de Dom Quixote , ou Sancho Pança.
    É soberba dos políticos, e dos subscritores das petições, pensarem que podem dispor dos médicos como carrascos da sua vontade.
    É soberba dos médicos pensarem que estão no cerne da questão por lidarem com a vida e a morte ou por assumirem ( uns poucos) disciplinas como a deontologia e a bioética, ou mesmo de pensarem que uma vez que abdiquem dos seus princípios fundamentais saberão navegar em águas pantanosas. Deveriam antes de mais rejeitar um papel que lhes é imposto sem consulta prévia.
    Vêm-se médicos os deputados, vêm-se politicos os médicos e eu já me vejo grego e a desejar vergastadas na praça pública a quem ousar assumir-se levianamente perito ou dono da razão na matéria, que além do mais toca na Constituição Portuguesa e na Declaração Universal dos direitos do Homem.
    Vamos aos paradoxos:
    Os arautos da primazia dos direitos individuais são os que mais me surpreendem . A mim , que sou confesso anarquista e avesso a qualquer tipo de autoridade e imposição sobre o indivíduo.
    Se a primazia de direitos não aparecer acompanhada , e distribuída, em igual medida da primazia das liberdades e deveres podemos ser um país de pequenos Trumps.
    Ele também é arauto do primado do direito individual, o seu.
    O primado da vida, e da igualdade da vida , não adjectivada de digna ou útil, é um direito, liberdade e dever universal . Um átomo que não se deve dividir. Mas exemplificaremos , por redução ao absurdo , no final.
    Os defensores dos direitos individuais querem regular a actividade de terceiros para tratarem de si quando assim o exigirem , e até já escolheram, unilateralmente, quem querem que lhes ” trate da saúde” . Um certo contra-senso ?.
    Médicos há que juram que o juramento de Hipócrates implicitamente “despenaliza “ actos misericordiosos como este, não preocupados que a palavra misericórdia possa também vir implicitamente a significar muita coisa.
    Há alguns( infelizmente muitos) sociólogos , politólogos, psicólogos e outros “opiniólogos” que desconsideram despudoradamente os médicos e a sua fundamentação, e mesmo a sua experiência e o seu sofrimento e impotência em face do sofrimento alheio , pintando-os como o cartoon do António ao Papa João Paulo II- , o tal do preservativo no nariz que vivia orgulhosamente desfasado da crua realidade.
    Para eles os médicos serão o maior entrave mas ao mesmo tempo, o bode expiatório e os agentes de execução eleitos. Curioso, no mínimo.
    Os leitores e comentadores dos defensores de ambos os movimentos acusam a facção contrária ora de libertinagem , ora de conservadorismo, e voam insultos de grupo, enquanto que na realidade a posição individual se prende tanto ou mais com experiências passadas e receios íntimos do que com ideologias, políticas ou religiosas. E por medos fortes, seja do sofrimento pessoal , seja do potencial descalabro ético, cientifico, jurídico, etc…
    Mas o maior paradoxo é estarmos a assistir a uma não-discussão , sobre um modelo que ninguém sabe apontar , de um assunto cuja necessidade objectiva de alteração da regulamentação ninguém mediu ou apurou ,e cujo impacto ninguém previu ou mencionou . Estamos a ter uma discussão ideológica e teórica com interlocutores que não estão minimamente capacitados ou sequer situados nos conceitos técnicos ou práticos que vêm propor.
    Senão como se explica que apenas uns poucos milhares de portugueses ( 6000 mil?- dados 2015) tenham subscrito o testamento vital ? E que esta subscrição tenha decorrido a um ritmo 98% abaixo das expectativas?
    Facto é que pessoas que ocupam posições relevantes nos media ou na politica ,e que deviam ter juízo no exercício das suas funções, continuam a usar argumentos pueris e apresentam-se claramente mal preparados ao debate de questões muito sérias . Não existe ainda maturidade para discutir este assunto , nem informação , nem contexto- é um facto de uma evidência cabal.
    Quando vejo estas pessoas a defender publicamente a eutanásia porque não querem vir a ser mantidos vivos num sofrimento prolongado se perderem a capacidade de falar ou comunicar por qualquer doença súbita incapacitante , só posso acender uma velinha pela santa ignorância e concluir que não fazem a mais pálida ideia do que estão a dizer, nem sequer da existência do Testamento Vital, e o mais certo é estupidamente ainda nem sequer o terem subscrito,ao mesmo tempo que corajosamente defendem aquilo que ali já está contemplado e facilmente estaria ao seu alcance.
    Quando, além do mais, vejo estas pessoa a apontarem o dedo aos médicos ,( esses desumanos, desfasados da realidade, com cheiro a sacristia e incapazes de um acto misericordioso ), apenas posso acender uma velinha à sua santa cobardia e apontar-lhes um mar aonde possam afogar todas as suas mágoas e ressentimentos,-
    e que é fácil:
    Pois imaginem o cenário seguinte: Leiam , conheçam e subscrevam o testamento vital – está amplamente divulgado na internet e nos websites oficiais. Decidam de antemão todos os tratamentos a que não querem ser sujeitos no caso de doença incapacitante. (É uma espécie de “medicina a la carte”, é um facto , mas isso seria outra discussão fracturante e prefiro vê-lo como um instrumento da boa relação médico-doente.)
    Por fim nomeiem (!) o vosso provedor de saúde no vosso Testamento Vital ( podem mesmo nomear um suplente).
    Agora um último exercício moral de introspecção-, a abordagem ao vosso provedor eleito:
    Já é sabido que a obediência ao testamento vital pode configurar uma eutanásia passiva- ou seja , a não prestação de determinados tratamentos médicos, que pode conduzir a uma morte antecipada , ou mesmo evitável, como no caso das testemunhas de jeová..
    Agora perguntem ao vosso provedor ( pessoa que nomeiam e em quem delegam as ultimas escolhas deixadas em testamento vital ), se em limite assume, caso a lei o permita, o dever de tomar a decisão da vossa morte ( eutanásia involuntária, de modo passivo ou activo) , ou simplesmente se assumem o dever de serem os executores incondicionais da vossa vontade,acaso decidam pelo suicídio assistido a determinado ponto .
    Como exercício de introspecção prévio ao debate , este diálogo e confrontação com o vosso potencial “provedor de saúde” pode apresentar-se como uma revelação (aos que defendem a primazia dos direitos individuais), com a virtude de promover a subscrição em massa do testamento vital.
    Mas não esquecer o reverso da medalha- , numa sociedade que subscreva 100% este documento estaremos igualmente obrigados a exigir e a matar, a quem quer que nos aponte , ou nomeie, como provedor de saúde e mantenha tal desejo, com ou sem a nosso consentimento e consulta prévia , no respeito rigoroso pela primazia da escolha individual.
    E mais uma vez um direito se transforma em dever . E de médico e de louco… todos teremos um pouco.
    PP

  2. Um assunto, que para muitos poderá estar na ordem do dia!?
    Para outros estará na ordem do dia, a saída imediata da UE e do Euro!?
    Porque não se referende?

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s