A sabedoria dos banqueiros suiços

Ontem partilhei aqui o estudo sobre a globalização – ou melhor sobre a crise da globalização – realizado pelo Credit Suisse. Um quadro perfeito no estudo ilustra os momentos de contracção e expansão dos ciclos industriais na longa duração. Tenho dois amigos economistas marxistas e trotskistas – imaginem vocês que para a maioria das pessoas tal designação soa a medicamento estranho, não posso infelizmente aqui desenvolver o tema – como quadros analista financeiros de instituições bancárias internacionais. Vivem de explicar aos bancos que o capitalismo está em declínio, e no tempo livre dedicam-se à pesada e difícil tarefa de organizar a classe trabalhadora contra…os bancos. Agora a pergunta: porque um banqueiro contrata estes tipos? Porque por volta de 1820 deu-se a primeira crise de super acumulação de capital e Marx viu o que ninguém via. Todos pensavam então que com a máquina a vapor e o crescente controlo do homem sobre pragas agrícolas “crise” era uma palavra do passado. Ora Marx veio explicar que não – que as crises seriam cada vez maiores, não por escassez mas justamente pelo seu contrário, excesso. Não é exactamente excesso de mercadorias – isso é a consequência – mas excesso de capital. Assim que o capitalismo se expande há uma tendência para cair a lucratividade, com o tempo há uma contradição entre os bens que a sociedade precisa (alimentação, casa, energia, etc) e o que os capitalistas precisam – lucro (nos media verão como investimento, dividendos, bolsas em alta, resultados positivos).
 
A novidade da crise que estamos a viver é na verdade explosiva e ninguém consegue antever todos os efeitos. O que se verifica é
1) apesar de todas as ajudas financeiras – na Europa 10% do PIB europeu foi colocado para salvar accionistas bancários e industriais – desde 2008 não há um retorno do investimento nem do comércio internacional aos níveis anteriores;
2) o emprego criado é largamente sub emprego ou pago a baixo do salário de reprodução biológica – dispara, mesmo na Europa e nos EUA, o número de trabalhadores activos pobres. Contraem-se as chamadas classes médias, concentram-se nas extremidades – mais pobres, mais ricos, ricos com mais capital.
3) Há uma crise de dissindicalização por via da flexibilização laboral, portanto o pacto social está a ficar sem um dos lados, o do trabalho
4) As taxas de juros estão negativas, ou seja, não há política monetária
5) a expansão de capital fictício é gigante, ou seja, a dívida é muito superior ao investimento real. Dito de outra forma, o dinheiro dados aos bancos acabou em malas e carros de luxo porque não retornou à produção, ao investimento.
6) Trumps vão ser cada vez mais e mais fortes;
7) Os marxistas e os trotskistas em particular vieram dizer ao longo do século XX algo como isto – ou os sectores mais conscientes das classes trabalhadores se organizam colectivamente ou a guerra entre nações, o proteccionismo, e a barbárie vão-se instalar. De certa forma é um medicamento estranho, de facto. Mas ninguém inventou um melhor: organizem-se, organizem-se, organizem-se – até o Credit Suisse já compreendeu o que vem aí…
Advertisements

One thought on “A sabedoria dos banqueiros suiços

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s